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Noivado permanente
O João era um rapazinho de 12 anos, mas muito
vivo e muito desenvolvido para a idade que
tinha.
Um dia virou-se para a avó e perguntou-lhe:
“Avó, qual a razão da avó tratar sempre o avô
por «meu amor»?”. A Avó não se atrapalhou e
tentou explicar-lhe.
Olha João, um dia encontrei aquele que hoje é o
teu avô. Olhamo-nos e algo começou a nascer
entre nós. Primeiro um encantamento e logo
depois um enamoramento. Começamos a namorar e
assim foi nascendo e crescendo entre nós o amor.
Não podíamos passar muito tempo sem nos vermos
ou falarmos e o nosso pensamento estava sempre
no outro. Por vezes zangávamo-nos, mas cedo
vinha a reconciliação e o amor fortalecia-se.
Passado algum tempo casámos e fizemos alguns
propósitos. Um deles foi de não deixar passar
nenhum dia sem «namorarmos», quer dizer sem
dedicar uns momentos a conversar a sós sobre o
que se passava connosco. Outro propósito foi o
de sempre que tivéssemos uma briga – coisa
normal e até saudável entre casados – nunca
deixar que acabasse o dia sem nos
reconciliarmos. Aquele que fosse mais humilde ou
sentisse que tinha agido mal pedia desculpa e
tudo ficava sanado.
Com estes propósitos a nossa vida conjugal foi
decorrendo serenamente com a alegria de ver
nascer os filhos e agora os netos, como tu.
Pela tardinha, sempre que podíamos saíamos os
dois de mão dada e sentados à mesa de um café ou
olhando o mar ao longe, conversávamos pelo menos
durante um quarto de hora. Os amigos quando nos
viam gracejavam: “lá vão aqueles dois
«namorar»”. Isso só nos enchia de alegria e esse
quarto de hora era o melhor do nosso dia.
Voltávamos a casa mais serenos, mais alegres e
sobretudo mais enamorados.
Compreendes agora a razão pela qual quer o avô,
quer eu nos tratámos por «meu amor»? Com a
fidelidade aos propósitos que fizemos o nosso
amor nunca esmoreceu e se não posso dizer que
foi crescendo, porque ele sempre foi enorme,
foi-se consolidando. Sentimo-nos, já com 45 anos
de casados, como dois jovens noivos! É assim que
se consegue uma vida a dois, que tem os seus
espinhos, mas pode ter muitas mais alegrias.
Assim, João, quando eu e o avô nos tratamos por
«meu amor» isso não é uma rotina, mas um acto de
sinceridade. E agora, o que vemos? Como não
sabem o que é amor, pois só pensam em sexo sem
compromisso, juntam os “trapinhos” e ao menor
choque vai um para cada lado, experimentar nova
aventura. E vemos as nossas raparigas tratadas
como “usar e deitar fora”. Só lamento que elas
parece que não se importam…
Maria Fernanda
Barroca |