Mudar de vida

O tempo livre
das férias permitiu que muitos portugueses na praia debaixo do chapéu-
de-sol, ou no campo a observarem a terra ressequida (e nalguns casos
queimada), reflectissem sobre as suas vidas. Neste momento singular de
introspecção, muitos sentiram vontade de fazer algumas mudanças. E como que,
num acto de contrição, elaboraram uma lista: «Tenho que trabalhar menos,
dedicar-me mais à família, ser menos consumista, ser menos egoísta e mais
tolerante com os outros, preciso de mais tempo para ler, etc.». Por
momentos, a consciência ficou aliviada. A promessa de mudar foi feita numa
convicção piedosa, originando uma paz interior temporária.
Mas… mentem,
mentem a si próprios! A maioria não muda nada! Após o regresso de férias a
rotina instala-se e o compromisso é rapidamente esquecido. E eis que, mais
uma vez são arrastados no turbilhão do dia-a-dia, ficando impotentes para
contrariar esta inércia. Durante o ano ─ se os problemas voltarem ─ toma-se
um ansiolítico ou o antidepressivo salvífico para acabar com os choros e
vai-se aguentando. Com a cabeça cheia de químicos cada um, à sua maneira, lá
vai levando a sua vidinha!
Depois, existe
um outro tipo de indivíduo: aquele para quem as férias não chegaram a ser um
período de paragem; pelo contrário, foi mais uma rotina entre muitas outras.
Nestes casos a capacidade de reflectir é pobre, quase inexistente. Em
psicoterapia diz-se que estas pessoas não têm insight. Ou seja, em
vez de serem “mentirosos” são “desertores de si próprios”, incapazes de
compreender o seu mundo interior. As suas vidas, são navegadas sobre um “mar
flat” de águas pouco profundas em que tudo é muito superficial, tudo é muito
light!
Dizem que a
nossa capacidade de mudar vai-se perdendo com a idade. Será que é mesmo
assim? A verdade é que há cada vez mais “jovens-velhos”. São indivíduos que
envelhecem aos vinte, e vão a enterrar aos oitenta! Estamos assim perante um
problema preocupante. Depois, não admira que, ─ tal como prevê a Organização
Mundial de Saúde ─ dentro de pouco mais de quinze anos, a depressão venha a
ser a segunda causa de incapacidade em todo o mundo.
Do meu ponto de
vista, a resolução desta “epidemia melancólica” não se limita apenas a
soluções farmacológicas. A alegria tem que ser procurada de outras formas,
mesmo sabendo que é grande a tentação de não fazer mudanças. É mais fácil
continuar com o queixume de sempre e atribuir ao infortúnio a culpa da nossa
infelicidade.
E porque não
mudar de vida? Assim, em vez de se começar com a ladainha de lamúrias,
talvez valesse a pena evocar as promessas de férias e averiguar se estão de
facto a ser cumpridas.
Afinal, estamos
sempre a tempo de mudar...
Pedro Afonso