«Uma noite à luz da vela»
Encontrei uma pessoa
que me confessou que a sua família, uma vez por semana, passa uma
noite à luz da vela. Tudo começou num dia em que a electricidade
faltou. Nessa noite não houve televisão, nem rádio, nem computador.
Pais e filhos ficaram juntos em redor de uma vela acesa. O serão foi
divertidíssimo, conversou-se, contaram-se histórias e o tempo passou
serenamente. A experiência agradou e, a família, a partir desse dia
decidiu passar uma vez por semana, a noite à luz da vela.
Actualmente, durante o dia, se retiramos o tempo de sono, as
famílias dispõem pouco mais de três a quatro horas para estarem
juntas. Habitualmente o (des)encontro tem início ao jantar. As
refeições são feitas de televisão ligada para se ver as notícias.
Este momento de partilha, por excelência, é assim desperdiçado: a
televisão intromete-se, como se de um muro se tratasse. A seguir ao
jantar, enquanto os mais novos se isolam no quarto a ouvir musica, a
jogar no computador ou a navegar na Internet, os pais continuam
hipnotizados pelo televisor, distraindo-se com a novela ou com o
reality show do momento. O tempo passa e, sem darem conta, as
quatro horas foram consumidas num ápice. No outro dia, a rotina
repete-se.
Para existir intimidade entre as pessoas é indispensável que haja
partilha. É importante revelar os pequenos acontecimentos que
ocorreram durante o dia. Os momentos bons, os maus, as dúvidas, os
desejos, as frustrações, enfim…, é preciso partilhar. De que outra
forma é que nos podemos conhecer uns aos outros? Se perdermos este
hábito como é que os pais podem acompanhar o que se passa com os
filhos? E o casal, como é que pode ter intimidade se não existir
diálogo?
Nos dias de hoje não se discutem em casa os vários assuntos da
actualidade; assistimos na televisão aos debates que os outros fazem
por nós. As crianças têm cada vez menos espaço para a imaginação.
Não brincam aos polícias e ladrões, ou aos príncipes e princesas,
preferem jogar em frente a um ecrã um jogo que alguém imaginou para
eles. Os adolescentes não procuram pedir aos pais opiniões e
conselhos, em vez disso pesquisam na Internet. Acaba por ser mais
cómodo para os pais, porque assim, pelo menos não os aborrecem com
perguntas difíceis.
Se reflectirmos um pouco, percebemos que vivemos numa sociedade de
consumo que procura a todo o custo apoderar-se do nosso tempo livre
e captar a nossa atenção, apenas com um objectivo: obrigar-nos a
consumir. É assustador o número cada vez maior de horas que os
adultos, jovens e até as crianças passam por dia a ver televisão e
em frente ao computador. O tempo acaba por ser destinado quase em
exclusividade para satisfazer necessidades narcísicas já que a outra
pessoa fica excluída.
Ninguém tem dúvidas que isto tem consequências na relação entre pais
e filhos. Mas, a relação entre o casal também fica atingida. Muitos
casamentos acabam por definhar com o tempo, por que não há
comunicação. O diálogo e a partilha são indispensáveis para que haja
intimidade entre as pessoas. Há coisas que têm que ser ditas.
Nalguns casos o silêncio pode ser corrosivo e devastador.
Um casal que atravessava uma grave crise conjugal apresentou-se ao
médico para tentar fazer uma terapia de casal. Uma das queixas
apresentadas pela mulher era que estava casada há trinta anos e o
marido nunca lhe tinha dito, durante aquele tempo, que a amava. Por
isso, ela sentia-se profundamente infeliz e insegura. O marido com
alguma indiferença respondeu ─ Disse-lhe que a amava no dia do
casamento, como não mudei de ideias, não vejo a necessidade de me
repetir.
Prescrição médica: «Uma noite por semana à luz da vela».
Pedro Afonso