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A
FELICIDADE E A INFELICIDADE
A felicidade e a
infelicidade são dois conceitos profundamente subjectivos e muitas vezes a sua
definição depende das condições físicas e/ou psíquicas do momento.
Quero dizer que tais conceitos variam de
indivíduo para indivíduo e para o mesmo, podem variar conforme as
circunstâncias.
Vou contar duas pequenas histórias que ilustram
isto mesmo.
Uma rapariga muito nova escreveu: O que é a
felicidade? Para mim, felicidade é poder chegar a casa de madrugada bem alta de
uma festa e não ter à minha espera o pai ou a mãe que me repreendam; é ter
bastante dinheiro no bolso para poder gastar no que me agrada; é ter amigos
«fixes» com quem possa passar bons momentos, saboreando um drink até
chegar à euforia sem atingir a embriaguez; é poder fazer férias com as(os)
amigas(os) sem ter de dar satisfações a ninguém do quando, do como, do onde.
Estas palavras terminavam com a assinatura : “15 anos – infeliz”.
A outra carta era noutros termos e de uma
rapariga da mesma idade. O que é a felicidade? Para mim felicidade é poder ver,
ouvir, falar, andar. Ver as belezas que me rodeiam e são tantas! Ouvir a
conversa dos amigos, os seus desabafos e receber, por vezes, os seus confortos;
é ouvir música que me agrada ou simplesmente sentir através do ouvido a presença
dos outros; falar é poder comunicar o que me vai na alma, é poder partilhar com
outra pessoa os nossos êxitos ou fracassos, as nossas tristezas ou alegrias;
andar...
quanto a isso nada posso dizer pois sou
paralítica desde tenra idade. Estas palavras terminavam com a assinatura: “15
anos – feliz”.
Dá de facto para pensar no profundo contraste
entre estas duas jovens que encaravam a vida por prismas diametralmente opostos.
A primeira fazia consistir a felicidade em futilidades e a sua vida era oca e
vazia de sentido, o que levava a considerar-se infeliz. A segunda olhava para as
coisas boas que possuía, esquecendo a sua enorme carência – não poder andar;
mesmo assim considerava-se feliz.
E nós? Qual o modelo que nos serve? O da
primeira ou o da segunda? Se for o da primeira, paremos um pouco a reflectir
para ver se a nossa infelicidade também está alinhada pelo seu prisma –
gozar, ter, satisfazer caprichos, saciar a vaidade. Se nos identificamos mais
com a segunda não esqueçamos que, mesmo no meio de algo menos bom que tenhamos
ou que nos possa acontecer, há muito de bom que podemos e devemos apreciar e
valorizar. Não façamos como o optimista e o pessimista: o primeiro ao olhar para
a garrafa do bom licor já em meio exclamou, com olhos brilhantes: “que bom,
ainda está meio cheia”, enquanto que o segundo comentava, com ar sombrio: “que
horror, já está meio vazia”.
Assim a infelicidade deixa de existir para nós,
pois sabemos olhar para o que temos, mesmo que seja pouco, esquecendo o que nos
falta, mesmo que seja muito.
Maria Fernanda Barroca

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