A excitação do momento
Há algum tempo atrás, houve uma pessoa que me disse que não via
telejornais, preferindo manter-se informado através de alguns jornais e
da Internet. Justificava-se com o facto destes serem demasiado
populistas, sensacionalistas, recorrendo a critérios editoriais
duvidosos. Dava como exemplo, o conteúdo dos jornais televisivos serem
quase exclusivamente preenchidos com três tipos de notícias: “a
excitação do momento”, fait-divers e futebol.
Depois de reflectir, tenho que lhe dar alguma razão, senão vejamos: “a
excitação do momento” corresponde à notícia de primeira página, àquele
assunto em que toda a gente fala. O tema preenche páginas e páginas de
jornais, abre telejornais e gera acesas discussões nos cafés, nos locais
de trabalho, em encontros de amigos, etc; enfim, é o assunto da moda,
sobre o qual todos discutem e têm uma opinião. Como exemplo temos: o
processo da casa pia, os incêndios que assolaram o país no verão, os
casos de autarcas com processos judiciais, e agora mais recentemente, a
gripe das aves.
Todos estes casos empolgaram a opinião pública, arrastando-se nos vários
serviços noticiosos por dias ou mesmo semanas, por vezes até à saturação
geral. Porém, estas notícias partilham algumas particularidades: têm uma
penetração transversal na sociedade, uma vez que interessam desde o mais
humilde analfabeto até ao ilustre professor universitário. Suscitam
habitualmente controvérsia ou são motivo de escândalo social. Geram, com
efeito, um sentimento generalizado de justiça popular, criando uma
dicotomia entre “os bons e os maus”. Evidentemente que toda a gente quer
ficar do lado “dos bons”, e por isso, há que encontrar rapidamente os
responsáveis pelo sucedido, fazendo-se julgamentos sumários. Na maioria
das vezes, as vítimas são os políticos – visto serem aqueles que detêm o
poder.
Mas existem outros ingredientes que conduzem ao sucesso destas matérias.
Muitas histórias divulgadas na comunicação social têm uma componente
sádico/masoquista. É neste capítulo que incidem todos os crimes, e toda
a produtividade hedionda que os psicopatas nacionais (e internacionais)
conseguem ter. Destacam-se ainda as notícias que projectam – de forma
directa ou indirecta – os nossos medos, originando um sentimento
individual (ou colectivo) de insegurança (por exemplo, o risco de
pandemia, a catástrofe natural, etc.).
Regra geral, a notícia de primeira página tem que gerar fortes
sentimentos nas pessoas; ou seja, têm que produzir uma reacção
emocional. Esta característica é um elemento fundamental para o seu
sucesso. Funciona, de resto, como um elo de ligação; o elemento que lhe
dá a penetração social e a universalidade. Isto porque,
independentemente da classe social ou do nível de instrução, todos
partilhamos desses sentimentos: revolta, indignação, piedade, medo,
vingança, etc.
Identificada a notícia falta agora transformá-la “na excitação do
momento”. Isso consegue-se em parte à custa da repetição, como se
tratasse de uma ideia obsessiva que parasita os nossos cérebros.
Subitamente, sem nos apercebermos muito bem como, ela sobe ao “top 10”
das nossas preocupações. Inevitavelmente, ao fim de algum tempo, a
notícia esgota-se, atingindo o seu limite de vida, mas depressa se
arranja outra para a substituir e o ciclo reinicia-se.
O grande perigo de tudo disto é a visão redutora com que se fica da
realidade. Muitos outros factos importantes que ocorreram entretanto
passaram despercebidos, porque não tiveram espaço e capacidade para
competir com “a excitação do momento”. Quem está mais atento sabe
perfeitamente do que estou a falar.
Não está em causa evidentemente a importância de muitas destas notícias,
o que é questionável é a sua transformação numa espécie de “sanguessuga
gigante”, que domina por completo toda a actualidade. Afinal de contas,
todos nós perdemos com isto, uma vez que ficam muitos problemas
relevantes por debater e resolver.
Sabemos ainda que, por razões de sobrevivência económica, muitos órgãos
de comunicação social acabam por ceder “à ditadura das audiências”. No
fundo, são as audiências quem determina aquilo que deve ter mais enfoque
ou não. Todavia, ao contrário do que acontece com as ditaduras
políticas, em democracia nós temos o direito à indignação! Não podemos
consentir que a actualidade se transforme numa novela, ou num reality
show.
Afinal, no fundo, no fundo, todos nós partilhamos as mesmas
preocupações!...
Pedro Afonso