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O sorriso
Era uma mulher simples e sensata. A páginas
tantas, durante a entrevista, o jornalista
fez-lhe uma pergunta directa e inesperada.
Talvez até, um pouco indiscreta, por estar
completamente fora do tema específico daquele
encontro. «Como é que consegue estar sempre a
sorrir? Porque é que temos a sensação de que
está permanentemente contente?». Sorriu
abertamente, com uma expressão de quem não
esperava essa mudança brusca no tema da
conversa. Transmitiu em directo – mais uma vez e
com toda a naturalidade – aquela genuína alegria
que lhe era tão característica e que não tinha
nada de postiço, nada de pouco natural. Começou
por explicar que ela – como todas as pessoas –
também tinha os seus momentos de tristeza, os
seus momentos de cansaço e até, algumas vezes,
os seus momentos de profunda inquietação.
«No entanto – continuou –, penso que conheço o
remédio para superar tudo isto, ainda que às
vezes tenha a sensação de não saber utilizá-lo
muito bem. E o remédio é este: sairmos de nós
mesmos, interessarmo-nos de verdade pelos
outros, compreendermos que aqueles que estão à
nossa volta têm o direito de ver-nos contentes.
Penso que, quando sorrio, comunico algo de
felicidade aos outros, mesmo que não esteja
especialmente entusiasmada nesse momento. E ao
procurar transmiti-la acontece-me que a
felicidade cresce no meu interior. Acredito que,
se não estamos sempre centrados na nossa
felicidade, e procuramos positivamente a dos
outros, encontramos indirectamente uma alegria
autêntica. Aquela que procede da generosidade».
Como diz A. Aguiló, o sorriso é algo que cada um
de nós tem de aprender a cultivar pacientemente
durante toda a sua vida. O sorriso, ao contrário
do que muitos pensam, não é uma planta que nasce
espontaneamente. Não é, evidentemente, uma erva
daninha – como são a tristeza e o mau humor. O
sorriso tem de ser fomentado, defendido e
protegido. Como? Com equilíbrio interior.
Aceitando a realidade da vida como ela é.
Gostando dos outros como são. Saindo de nós
mesmos e esforçando-nos por sorrir – mesmo
quando não nos apetece.
O sorriso representa, muitas vezes, uma vitória
sobre a tentação do mau humor. E as vitórias
exigem luta, esforço e determinação. Mas, lutar
contra quê? Contra o próprio medo e contra a
própria debilidade. Estas são, muitas vezes, as
causas mais profundas da tristeza, do pessimismo
e da inquietação. Tornam as pessoas infelizes e
amargas porque – entre outras coisas – asfixiam
a sua capacidade de sorrir. São ervas daninhas
que têm de ser arrancadas com paciência e
constância.
É uma grande sorte ter ao nosso lado caras
sorridentes. Como dizia alguém, o sorriso custa
menos do que a electricidade e dá mais luz.
Procuremos ser amáveis. Manifestemos essa
amabilidade também com o sorriso, mesmo que
algumas vezes isso possa exigir um pouco de
esforço. É um esforço que vale a pena. O sorriso
ajuda-nos a sermos mais humanos, modera as
nossas tendências agressivas e facilita-nos
compreender melhor os outros. São só vantagens!
E o esforço – sejamos sinceros – não é nada do
outro mundo.
Pe. Rodrigo Lynce de Faria |