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LUGAR DOS NOVOS Destaque: A vida de relação é um marco do adequado desenvolvimento emocional, e da sua riqueza depende o próprio crescimento de cada um. Mas, de verdade, e ao contrário do que parece, a vida de relação de quase todos os que abusam de álcool e drogas não existe ou é demasiado vazia Começa a inquietar o problema do aumento de consumos de bebidas alcoólicas e de drogas no grupo dos mais novos. Num padrão predominantemente de noites de fim-de-semana, são cada vez mais os que se iniciam com enorme violência no abuso destas substâncias. No álcool, destacam-se as bebidas brancas de alta graduação, ingeridas de forma rápida (os chamados "shots"), para que o efeito inebriante seja rapidamente atingido; nas drogas, nunca saíram de moda o haxixe (os "charros", na designação comum), e aparecem com cada vez mais força o "ecstasy" e drogas com características alucinogénicas, cujos riscos para o bem-estar físico são consideráveis. Os dados mais recentemente apresentados apontam para que em Portugal o número de dependentes seja de 40 mil a 60 mil, número a que parece escapar uma fatia muito maior de pequenos consumidores, sendo que 15 por cento de alunos do 3º ciclo já teriam experimentado e usado regularmente este tipo de drogas. Ainda há pouco tempo, um programa de televisão mostrou em detalhe parte desta realidade. Então, que poderemos pensar, que raízes existirão para este problema de abuso, até onde conseguiremos ir? Não se conhece problema mais temido por qualquer pai ou adulto que tenha a seu cargo crianças e adolescentes, numa inquietação que ultrapassa barreiras sociais, culturais ou económicas. Isto independentemente de todas as outras situações a que estes consumos se ligam, como a criminalidade, as doenças como a hepatite e a sida, e todas as situações de desintegração individual e social, como as dificuldades escolares e profissionais. Na área de trabalho da psiquiatria da infância e adolescência, somos frequentemente confrontados com muitos rapazes e raparigas que cedo se iniciam nestes padrões de comportamento, e não parece complicado traçar-lhes alguns dados comuns, que podem servir como ponto de partida para organizarmos o pensamento. O primeiro ponto que vale a pena destacar é que estes comportamentos têm sempre uma base emocional que os justifica. Independentemente da pressão do grupo, é na estrutura individual de funcionamento psíquico e social que tudo começa, ou não. Existe a ideia comum que só usa e abusa das drogas quem para isso é levado por outros, quer sejam, por exemplo, amigos ou namorados, como se nada dependesse do próprio. Claro que, sobretudo na adolescência, o desejo de identificação social é grande, e que o sentimento de pertença a algo ou a alguém tem um peso determinante na modulação do funcionamento individual. Contudo, quanto mais competente - quer dizer, estruturado, seguro - for o funcionamento individual, menos o próprio terá uma tendência a diluir-se por completo nos outros. Só em casos de grande vulnerabilidade e pouca coesão interior é que esse apagamento se regista, e a capacidade de oposição, de dizer "não", se dilui perante o desejo de agradar ou ser como o outro espera que se seja, e não como de verdade se é. Este aspecto leva-nos então a pensar que, por detrás de um adolescente que cedo começa a abusar do álcool ou de drogas, existe uma qualquer fragilidade ou vulnerabilidade psíquica, sendo que esse abuso é uma forma de exteriorizar um mal-estar interior, embora de forma habitualmente não consciente para o próprio. E que mal-estar é mais comum encontrar-se? É verdade que, quando se conhecem muitos destes rapazes e raparigas num registo individual, neutro e livre, não é difícil verem-se emergir sentimentos de insatisfação pessoal, em estruturas de personalidade onde predominam temas de insegurança ou desvalorização, muito frequentemente encobertas por um padrão de comportamento agido, impulsivo, orientado para o "aqui e agora", com baixa tolerância à frustração e pouco reconhecimento da existência de uma qualquer autoridade, mesmo a que vem da família. Por isso se diz também que estes consumos têm um valor muito agressivo e destrutivo, quer para o próprio, quer para quem de mais perto o rodeia. De forma muito simples, grande parte destes miúdos não tem (afecto, limites, por exemplo), ou se tem sente que não é suficiente, porque a expectativa criada sobre si próprio ou os outros é distorcida em relação à realidade: como quem mantém fome porque o prato nunca se encheu, ou porque estando cheio, nunca se sente satisfeito com o que possui. Então, em essência, as duas grandes falhas em que se estabelece a origem destes problemas têm a ver com a fragilidade ou distorção da auto-imagem e/ou com a inconsistência de regras e limites. Se a isto juntarmos uma cultura social crescente que teima em desvalorizar os efeitos negativos, actuais e futuros, do elevado consumo de substâncias tóxicas, e as obscuras e muito poderosas redes de interesse económico que à sua volta existem, então aumentam as probabilidades de estes comportamentos acontecerem. Sendo assim, a melhor forma de evitar estes riscos na adolescência é manter a existência de um ambiente familiar de referência, consistente na qualidade afectiva, eficaz na capacidade de comunicação entre pais e filhos, constante na definição de regras e limites. E o que podemos e devemos ou não fazer, o que valorizamos ou não em nós e nos outros, não se cria ou desenvolve apenas a partir dos 12 ou 13 anos; aparece e cresce desde o início da vida, numa constante modelação da criança a tudo o que a envolve. A verdadeira prevenção começa por aqui. Ir à escola, sair à noite, conhecer amigos, ter namoradas (os) e procurar diferentes formas de divertimento são aspectos não só importantes, como fundamentais no crescimento de todos. Não tem que ser um pesadelo para pais, ou um enorme risco para os mais novos. A vida de relação é, aliás, um marco do adequado desenvolvimento emocional, e da sua riqueza depende o próprio crescimento de cada um. Mas, de verdade, e ao contrário do que parece, a vida de relação de quase todos os que abusam de álcool e drogas não existe ou é demasiado vazia. Mesmo que não pareça, pois todos sabemos bem a diferença entre a aparência de superfície e a profundidade interior. Por isso, muitos desses adolescentes fogem realmente de uma qualquer tristeza, de um desamparo tão intenso, que a melhor imagem que nos pode ocorrer sobre as suas necessidades é a de um abraço. Um abraço profundo, terno, seguro de agarrar e não deixar fugir. De algo que toque e dê um sentido, que deixe passar pelo contacto algo que o álcool ou as drogas nunca darão: a verdade dos sentimentos, a consistência de um amor que inebrie, a envolvência segura de tudo quanto nos aquece. Para que a noite faça sentido e, em vez de assustar tantos, traga consigo um tempo de melhores sonhos tornados realidade. |