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Diário de Notícias - 23 Abr 03
Propinas
Francisco Sarsfield Cabral
Algo vai mudar no ensino superior _ e ainda bem. O imperativo reformista que dá
sentido a este Governo pretende retirar algum poder aos estudantes na gestão dos
órgãos universitários. Assim se corrige a demagogia que quase fez dos alunos os
donos da Universidade (recorde-se a demissão do anterior reitor de Coimbra). E
mudam os critérios de financiamento pelo Estado dos estabelecimentos de ensino
superior: irá mais dinheiro para quem tiver mais professores doutorados e não,
como agora, para quem tiver mais alunos.
Estas e outras mudanças vão no sentido da qualidade. Mas a alteração mais
emblemática, e certamente a mais contestada, será a subida do valor das
propinas, que quase duplicarão de valor. E que poderão ser agravadas em caso de
chumbo. Há, também, a possibilidade de cada universidade ou politécnico fixar o
valor das propinas dos vários cursos, dentro de limites máximos e mínimos.
O simbolismo do aumento das propinas tem a ver com o facto de, logo quando tomou
posse, o primeiro Governo de Guterres ter querido apaziguar os estudantes que na
rua berravam «Não pagamos!». Foi um dos primeiros sinais do facilitismo que iria
marcar os seis anos seguintes. Acabaram entretanto as ilusões de que há almoços
grátis. No caso dos universitários, têm sido os contribuintes a pagar: ou seja,
com frequência são os pobres a financiar os ricos. Importa, agora, que a
comunidade pague alguns «almoços» aos pobres. Isto é, que o Estado financie o
ensino superior daqueles que, tendo mérito escolar, não possuem recursos para
pagar as propinas. É uma questão de justiça e também de valorização do futuro do
País, que não pode desperdiçar talentos. Mas nisto, como no resto, não chegam
declarações de intenção.

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