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Público - 12 Fev 03
Lynce Diz Que Há "Grande Confusão" nos Cursos de Engenharia
Por ANDREIA SANCHES
Ministro foi à Ordem dos Engenheiros, em Lisboa, debater reforma do superior
Nos próximos três anos, o número de alunos potencialmente candidatos a entrar
num curso superior "sofrerá uma quebra de 13 por cento". As contas foram feitas
pelo ministro da Ciência e do Ensino Superior e apresentadas na segunda-feira à
noite, em Lisboa.
O objectivo foi, uma vez mais, chamar a atenção para a necessidade de reduzir o
leque de cursos superiores que existem em Portugal - "Estamos em rota de
colisão!", sublinhou Pedro Lynce. Desta vez, os destinatários da mensagem foram
os engenheiros, num jantar em que Lynce não poupou críticas ao sistema.
"Nas engenharias, a confusão é muito grande", sustentou. Há cerca de 300 cursos
nesta área, dos quais apenas 90 estão acreditados pela Ordem dos Engenheiros (OE)
e muitos sofrem já os efeitos da desertificação, provocada pela falta de
estudantes.
Convidado pela OE para falar da reforma do superior, que está em fase de
discussão pública, Lynce expressou-se em tom de alerta: "O caminho que temos
tomado tem sido o da autodestruição", "o caminho que fizemos até agora foi o de
comermo-nos uns aos outros". Estranhamente, disse, as instituições de ensino
continuam a apresentar planos de desenvolvimento que partem do princípio de que
os alunos vão aumentar.
Já Alberto Amaral, do Centro de Investigações das Políticas do Ensino Superior,
tinha apresentado, em Novembro, um estudo onde se estimava que, entre 1995 e
2005, o 12º ano do secundário perderia 32 mil alunos. E a lei que, a partir de
2005, obrigará todos os candidatos a ter uma nota mínima nas provas de ingresso
de 9,5 valores irá igualmente contribuir para que menos jovens possam concorrer.
Daí o pedido do ministro: "Entendam-se, por favor!", referindo-se à necessidade
de universidades e politécnicos se sentarem à mesma mesa para planearem quem
deve oferecer o quê e que mudanças devem ser introduzidas para ir ao encontro
das necessidades do mercado de trabalho. Nestas área, sustentou, "há também
lugar para o ensino profissional". "Mas em Portugal todos querem ser doutores ou
engenheiros... Gostava de importar o 'don' espanhol para resolver este
problema", rematou.
Mas porque a reforma que o Governo quer introduzir alterará também o modelo de
gestão das instituições de ensino, Lynce não poupou críticas aos métodos
actualmente usados por universidades e politécnicos, por exemplo, para recrutar
professores. E relatou algumas cenas "pouco dignificantes": o facto de não serem
contratados doutores exteriores às escolas, por exemplo. Ou os concursos em que
"sai primeiro o edital, conhece-se o candidato e depois escolhe-se o júri".
"O resultado é que temos cada vez mais queixas no Tribunal Administrativo
relativas à constituição dos júris. Será preciso um provedor em cada
instituição?" Matos Ferreira, presidente do Instituto Superior Técnico, em
Lisboa, foi um dos presentes que contestaram que as coisas se passassem
realmente assim.
Lynce referiu-se igualmente aos alunos, atribuindo-lhe grande quota-parte de
culpa no insucesso escolar: "Criou-se a ideia nas instituições de ensino de que
se pode aprender sem esforço", o que, garante, não é verdade.
E como não podia deixar de ser, o modelo de financiamento das universidades
mereceu larga discussão. Lynce já sabe qual o orçamento de que dispõe para os
próximos três anos e diz que, se se quer melhorar a qualidade do ensino, é
preciso que as escolas encontrem receitas próprias. Uma ideia que suscita
dúvidas entre alguns universitários, que temem que isso signifique "pôr os
professores a fazer uns biscates".
Finalmente, Lynce não evitou o tema das propinas e aos que dizem que elas têm
servido para pagar os salários dos professores, em vez de serem investidas na
qualidade, como diz a lei, respondeu: "Não vejo mal nisso, os recursos humanos
são qualidade. Prefiro que as propinas paguem os salários do que o papel
higiénico."

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