Público - 18 Fev 03

As Escolas Secundárias "São Escolas de Sobreviventes"
Por SANDRA SILVA COSTA

É "crítica" a situação do ensino secundário em Portugal. Embora entre 1985 e 1995 a frequência tenha duplicado, a procura tem vindo a diminuir e são ainda várias as "resistências" à sua universalização. A atractividade que este nível de ensino exerce sobre os alunos é fraca, os níveis de insucesso e de abandono "têm aumentado dramaticamente" e há nas escolas "margens elevadas de ineficiência".

Por tudo isto, Joaquim Azevedo, ex-secretário de Estado dos Ensinos Básico e Secundário nos governos de Cavaco Silva, não tem a mínima dúvida: "O nível secundário está doente, há muito que padece de várias enfermidades."

Estas são apenas algumas das conclusões do estudo "Evolução da oferta e da procura do nível secundário: Que estratégia para o ensino tecnológico e profissional em Portugal?", coordenado por Joaquim Azevedo, que deverá ser apresentado no próximo mês, em Lisboa.

A investigação, realizada entre Setembro e Dezembro de 2002, resultou de uma encomenda da Sedes - Associação para o Desenvolvimento Económico e Social. Ao longo de 164 páginas, os autores do estudo - Joaquim Azevedo, António Fonseca, Francisco Jacinto, Jorge Pinto e José Matias Alves - passam em revista a evolução da oferta e da procura das várias modalidades do ensino secundário entre 1992 e 2002 e sugerem algumas "linhas de orientação estratégica".

"As escolas secundárias ainda são escolas de sobreviventes", diagnostica Joaquim Azevedo. Basta olhar para as taxas de insucesso e abandono, situadas "muito acima do que seria razoável", concretiza. Aos "elevados" níveis de reprovação no 10º ano juntam-se os do abandono: segundo dados do Departamento de Avaliação, Planeamento e Prospectiva do Ministério da Educação, referentes a 2000, o abandono no 10º ano, mais acentuado nas regiões do Norte do país, atingia praticamente um em cada quatro estudantes.

Mas há outros dados nada animadores. Se se atender ao número de alunos que efectivamente concluem em três anos os seus cursos de nível secundário, constata-se que "há elevadas margens de ineficiência" nas instituições educativas.

No ano passado, Joaquim Azevedo, num estudo desenvolvido para a Fundação Manuel Leão, comparou o rendimento escolar em 40 escolas secundárias e 36 profissionais, analisando o ciclo de estudos iniciado no ano lectivo de 1997/98 e concluído em 1999/00. Primeira conclusão: há "uma elevada ineficiência nos cursos gerais e tecnológicos das escolas secundárias, sobretudo nestes últimos".

"Nos cursos tecnológicos, no fim de cada ciclo de estudos, apenas se diplomam 24 alunos em cada 100 matriculados", lê-se no estudo para a Sedes. Completam os cursos gerais no período estipulado 44 por cento dos estudantes. As escolas profissionais "apresentam resultados mais positivos": 66 em cada 100 alunos saem com o diploma nas mãos três anos depois de iniciarem o ciclo de estudos.

Os investigadores aventam algumas das razões que poderão explicar este sucesso. Entre elas contam-se "a dimensão das escolas, pequenas ou com poucas centenas de alunos", o "acompanhamento personalizado" dos estudantes e o "regime modular de aprendizagem", que "facilita o alcance de metas".

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