|
Público - 5 Set 03
O Elogio da Velhice
Por ESTHER MUCZNIK
"Uma velha professora primária, cheia de rugas, já não faz sorrir os alunos.
Deixem-me trabalhar apenas o tempo necessário, 37 anos e meio, mais não."
Este texto, colocado na boca de uma professora, constava de um cartaz em
França, contra o prolongamento do tempo de trabalho dos funcionários
públicos até aos 40 anos de serviço. Independentemente da justeza ou não
deste objectivo da luta sindical, o seu conteúdo é um espelho do desprezo e
do ostracismo crescente a que são votados os velhos e que em França não foi
alheio à morte de perto de 12 mil pessoas, a maioria dos quais idosos,
durante a recente canícula.
De facto, o que diz o cartaz? Que o espectáculo da velhice é tão horrível
que se torna necessário poupar os alunos à sua visão; que o objectivo do
ensino é fazer rir os alunos; e que é aos jovens que cabe a formação dos
jovens. A propósito, não resisto a evocar aqui uma máxima talmúdica e que
diz o seguinte: "Quem aprender a lei divina com homens novos é como se
comesse uvas verdes e bebesse vinho saído do lagar; porém, os que aprendem
com mestres idosos é como se comessem uvas maduras e bebessem vinho velho."
Porquê? Porque, se idade avançada nem sempre equivale a sabedoria, é
naturalmente mais provável encontrá-la na maturidade e com a experiência de
uma vida.
Mas tudo nas nossas sociedades empurra os velhos para a solidão e o
esquecimento, quer seja nos lares da terceira idade, na sua própria casa ou
até nas casas dos filhos e familiares. Na realidade, apesar de cada vez mais
numerosos, apesar do seu crescente peso demográfico, os velhos estão-se a
tornar nos verdadeiros "marcianos da Terra".
Recentemente, Miguel Monjardino escrevia, aqui no PÚBLICO, que "A Europa
(...) está a caminho de se tornar um continente grisalho onde cada pessoa
empregada sustentará um reformado com mais de 65 anos. Ao ritmo actual,
metade dos alemães terão mais de 50 anos em 2030. E nessa data, metade dos
italianos terão mais de 54 anos". Nos outros países europeus, a tendência é
a mesma.
Uma maioria, pois. Mas uma maioria de que não se fala, que pouco semanifesta,
que quase pede desculpa de estar viva.
Paradoxalmente, no momento actual e nas sociedades mais desenvolvidas, é
muito mais difícil ser-se idoso. Paradoxalmente, porque as nossas sociedades
oferecem um novo estatuto às pessoas de idade, o estatuto de "novos velhos"
ou de "velhos novos", através do qual se criou todo um mercado que vai desde
as viagens até às operações plásticas ou ao Viagra, tudo feito para manter a
ilusão da juventude eterna. Mas, na realidade, é a própria negação da
velhice como algo de fecundo para sociedade que é afirmado neste novo
estatuto. Um estatuto que tende a tirar à idade aquilo que lhe é próprio: a
experiência e a sabedoria, e que lhe reserva o patético papel de imitar a
juventude.
A velhice anuncia ao homem o seu destino: o homem insensato, que afinal
todos somos mais ou menos, tende a recusá-lo, maquilhando-a, disfarçando-a
enquanto pode e depois encerrando-a longe da vista e do coração.
O reverso da medalha é o culto da juventude. Televisões, rádios,
publicidade, lazer, estão cada vez mais virados para os jovens e
adolescentes. Mas sob o lema "o futuro pertence aos jovens" está normalmente
mais uma aposta comercial do que uma verdadeira preocupação social. Num
mundo em que a aparência é tudo, as rugas não têm direito à vida.
Mais importante do que isso: o desprezo a que é votada a velhice rompe a
cadeia de transmissão social, a continuidade da história individual,
familiar e social. Sem ligação ao passado, o homem filho ou o homem social
encontra-se na incapacidade de construir a sua identidade narrativa. É esta
ideia central de transmissão, de herança, de correia ininterrupta entre as
gerações que está posta em causa.
Em Portugal, a situação não é tão drástica, nem tão dramática como em França
ou noutros países da Europa do Norte. Pelas boas e más razões, talvez
funcione mais aqui a solidariedade de gerações, a estrutura familiar ainda é
mais sólida, pelo menos no interior. Não é por acaso que o número de mortos
durante o calor de Agosto, embora excedendo certamente os ridículos quatro
apresentados pelo Governo, é muito menor do que em França.
Mas não nos enganemos: a tendência é a mesma. A marginalização, o corte de
gerações é o resultado, não de uma vontade colectiva deliberada, mas de uma
evolução social e económica, assim como de uma desvalorização cultural das
características próprias da idade avançada - a experiência, a sabedoria, a
memória. A modernidade que soube dar uma nova esperança de vida aos idosos
não tem sido capaz de integrar o contributo específico da velhice. Não tem
tempo, não tem paciência, não vê a utilidade.
Tal como em Portugal com os incêndios, em França foi preciso uma catástrofe
nacional para se encarar de frente o problema. Está a ser elaborado um plano
"Envelhecimento e Solidariedades", fala-se também em consagrar um dia
feriado à solidariedade com os idosos. A discussão gira em torno das verbas
a atribuir, dos cuidados a administrar, o que é fundamental: em Portugal os
idosos urbanos continuam a morrer em "lares" absolutamente indignos, ou nas
suas casas sem o menor acompanhamento social. Mas o problema não é apenas de
dinheiro ou de cuidados de saúde - é um problema cultural: o do lugar dos
idosos na sociedade, a mais-valia que podem representar numa sociedade em
fuga acelerada para a frente.
Entretanto, os velhos, esses, calam-se... |