Público - 15 Set 03

A Pior Televisão É o Melhor Negócio
Por MÁRIO PINTO

1. "A grande maioria das crianças britânicas com cinco a seis anos vêem em média até seis horas diárias de televisão, apesar de os próprios pais considerarem que elas deviam passar mais tempo a brincar fora de casa"(notícia do PÚBLICO do passado dia 4). Trata-se de uma grande surpresa? e modo nenhum. É apenas mais uma confirmação do que já se sabe constituir fenómeno universalmente crescente. Também em Portugal. E então?

Se atentarmos em que, mesmo para crianças com cinco a seis anos, os pais não conseguem contrariar a tendência, e já só lhes resta lamentar-se, logo se evidencia a força irresistível do fenómeno televisão. Na citada notícia, o Inspector-chefe das escolas britânicas queixa-se de que "as competências comunicacionais e comportamentais entre as crianças de cinco anos se encontram ao nível mais baixo de sempre".

Estas avaliações ("baixo nível") são de ordem quantitativa. Mas há uma outra questão, que creio não ser menos preocupante, que é da ordem da qualidade. Ou seja: que espécies e conteúdos de informação e socialização recebem estas crianças pela televisão, em substituição prejudicial do nível das competências comunicacionais e comportamentais? A isto a notícia não faz referência.

Ora bem, a televisão começou por ser uma grande esperança, sobretudo comunicacional e cultural, e ainda assim é frequentemente imaginada, em teoria e em doutrina. Mas sabemos todos que tem vindo a evoluir concretamente, sobretudo no seu mais importante segmento de televisão comercial, para um negócio que privilegia o tráfico de emoções, e cujo maior mercado são as pulsões e os instintos com raízes no nosso dificilmente controlável mundo interior, subconsciente e inconsciente. Os interesses e os prazeres de ordem intelectual e estético são escassamente satisfeitos. O menos mau são os passatempos e o desporto.

Na história do mundo, nunca a violência bruta e a tosca sensualidade terão sido tão excitadas e exploradas como hoje, nas televisões comerciais mas até nas televisões públicas. Comparativamente com esta capacidade de invasão, evasão e sugestão/manipulação, as máquinas de propaganda política de Hitler e de Estaline foram menos poderosas. Nunca chegaram tão fundo, porque se até violentavam os corpos e matavam em nome de mitos ou ideias, não eram capazes de entrar gozosamente pelas portas das traseiras e, pior quando em troca de dinheiro, ser tão indolores na ocupação e na moldagem do lado obscuro das almas. Na teoria dos média, este efeito de ludíbrio psicológico está bem assinalado com a analogia do assaltante que lança um pedaço suculento de carne para distrair "o cão de guarda da consciência". O cúmulo passa-se com as crianças e jovens, quando se inclui o efeito sedutor e subliminar em programas vídeo infantis ou juvenis com finalidades ideológicas ou de publicidade e lucro económico.

A nossa civilização tem por isso um grave problema, com este poder imenso e sem controlo da televisão. De facto, sendo considerada o mais potente dos instrumentos de influência social na educação e na cultura de massas, ela escapa-se ao respectivo estatuto e responsabilidades. São em comparação muito mais controladas pelo Estado as escolas, privadas e públicas, do que as televisões, privadas e públicas. Ora, se estas são mais poderosas e ambíguas do que as escolas, difícil é justificar tão contraditório regime jurídico e político, entre o rigor do estatismo educativo escolar (em matéria de liberdade escolar de ensino e educação) e o laxismo do indiferentismo televisivo (em matéria de liberdade televisiva de informação e de cultura des/educativa).

2. Li recentemente, no PÚBLICO do dia 1, da autoria de Eduardo Cintra Torres, um artigo intitulado "Lágrima de espectador". Nessa excelente peça de crítica de televisão, revelava-se sem margem para dúvidas (uma vez rigorosamente analisado e criticado) a mediocridade e até a manipulação de um noticiário televisivo. Um tal trabalho de Cintra Torres merecia uma condecoração por serviços distintos prestados à causa pública; esperemos que continue.

Mas o problema maior é que, se calhar, aquele género de noticiários e programas do género Big Brother têm êxito comercial. Ou seja: a má televisão é o melhor negócio. O meu prezado leitor já pensou bem onde é que isto nos conduz? Conduz-nos, como tem sido dito, para uma competição puramente comercial que tende para o lixo televisivo. Que explora e exalta o que há em nós de menos elevado e educado, sem sequer poupar as crianças.

Não tem porém de ser necessariamente assim. Por um lado, há que fazer um combate de "educação para os média". Por outro lado, há também que regular devidamente o sector televisivo. As elites e poderes de racionalidade e de governo, as instâncias culturais meritórias, de responsabilidade e de capacidade de influência, não se podem demitir.

Mas ainda haverá capacidade destas instâncias? A dúvida foi defendida por José Manuel Fernandes, no seu editorial de quarta-feira. Perante o fenómeno poderoso dos média, escreveu ele: "as elites políticas, mas também as sociais e culturais, em vez de se elevarem acima da mediania, preferem seguir o inconstante sentido do vento e serem "populares"". Isto é: preferem seguir o cânone mediático dominante no mercado e demitir-se numa questão que é de cultura e direitos humanos.

Aos que preferissem ver aqui uma questão apenas de mercado, dir-se-ia que faltam então as instituições que noutros domínios nasceram para corrigir e equilibrar mercados. E se há sindicatos e fóruns para defesa dos interesses e direitos de vários grupos de produtores (por exemplo empresariais ou profissionais), já assim não é para defesa dos consumidores - e, no nosso caso, trata-se da defesa dos consumidores de televisão.

Temos assim um grave problema de equilíbrio de poderes no seio do subsistema cultural da sociedade civil. Já houve quem tudo quisesse reconduzir à política: "tudo é político"; "politique d'abord". Deu mau resultado. Já houve quem tudo quisesse explicar pela economia: "determinação do económico, em última instância"; "it's economics, stupid". Também foi forçoso superar uma tal simplificação. Em ambos os casos se gerou a dialéctica da revolução.
Inclino-me para pensar que, nas sociedades pós-modernas pluralistas, o que é baricêntrico e essencialmente reformista (logo, progressista) será a cultura social. Apenas pela via política ou pela via económica não construiremos, e nem sequer sobreviverá, uma sociedade verdadeiramente justa e desenvolvida, material e espiritualmente. Tem que nela existir e se auto-sustentar determinantemente (embora em rede interactiva no seio do sistema geral) uma cultura de valores e virtudes. Que mantenha uma coesão sócio-cultural no respeito pela dignidade humana de cada pessoa, nunca redutível a simples consumidor num negócio televisivo milionário ou súbdito de um desígnio ideológico iluminista autoritário.

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