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2002.09.02
Rui Rosas da Silva
A PROPÓSITO DOS 24.000
CANDIDATOS A PROFESSORES NÃO COLOCADOS
Nas memórias da nossa vida
aparecem certamente momentos inesquecíveis. Há alguns dias, perante as
notícias dum jornal – que encabeçava a 1ª página –, recordou-se o autor
destas linhas do começo da sua vida docente. Já lá vão bastantes anos.
Concorreu, sem muito interesse na resposta, para dar aulas da sua
especialidade no ensino público de então. Pensava, como hipótese entre
outras, dedicar-se à docência. Não contava, porém, com a pressa e o
despacho do Ministério da Educação. Sem cerimónias, escreve-lhe num dia de
Setembro, indicando onde ficava colocado e dando-lhe a possibilidade de
levantar um bilhete de comboio na estação mais próxima da sua residência,
a fim de viajar até à escola que se lhe atribuía. Tão simples como isso.
Fiquei nessa mesma hora empregado. E o telefone da minha casa, também
nesse dia, chamou-me a encarecer a minha presença rápida no referido
estabelecimento escolar. Queria que eu verificasse se o horário que me era
destinado necessitava de alguma alteração de pormenor – não, obviamente,
de fundo - para se dar início às aulas, no dia indicado, sem grandes
sobressaltos...
Que pena senti dos 24.000
candidatos à docência pública que ficaram sem colocar, em virtude de haver
excesso de procura docente e escassez de matéria prima discente, neste ano
em curso. Por razões profissionais, estive ausente da minha morada actual
numa região tipicamente rural. Passei por várias aldeias. Não foi excepção
encontrar as escolas, outrora pejadas de crianças alegres e traquinas,
transformadas em restaurante local, em sede de alguma associação
folclórica, etc. E havia ainda as que não perfaziam nenhuma das situações
referidas, pois, pura e simplesmente, como velhas reformadas sem amparo e
sem protecção, tinham os telhados a cair, os vidros partidos, etc., etc.,
etc....
Para não terminar
o rol dos meus agravos e penas, verifiquei, estupefacto, com as órbitas
fora dos olhos, o que nunca imaginara supor nos dias da minha existência:
o meu velho liceu portuense – “tripeiro”, como prefiro dizer dum modo mais
castiço – ia ser aglutinado ao das “miúdas”, situado mesmo ao lado. Aí vi
começar tantos e salutares namoricos, que depois redundaram em matrimónios
férteis de crianças. Mas estas são hoje as dores de cabeça dos meus
colegas da altura, quando me noticiam, muito de longe em longe, que
conseguiram convencer a sua filha ou o seu filho, depois de espinhosas
abordagens, a gerar um descendente, o netito de estimação.
Por este andar, haverá dentro
em breve pó e teias de aranhas nos sindicatos da classe docente. A menos
que os seus mentores acordem e se disponham a enveredar por caminhos de
rigor e de objectividade reais. Ou seja, arvorando-se em defensores
acérrimos de políticas natalistas e condenando com o mesmo vigor tudo
aquilo que levou o nosso país a esta carência brutal da matéria prima, que
constitui a condição sine qua non para que os seus associados
possam trabalhar. Não se trata já da defesa das condições ideais de
trabalho dos seus associados. Precisam de conseguir garantir o mínimo
metabolismo de base para que eles consigam exercitar a sua profissão. De
momento, e perante tão grave calamidade, estas instituições de classe
deveriam deixar de chamar-se sindicatos de professores, para se
auto-proclamarem sindicatos dos desempregados ou dos masoquistas que
teimam em candidatar-se ao trabalho docente.
A situação que se vive é um
círculo-quadrado. Diminui, anualmente, aos muitos milhares, o número de
alunos; aumenta – não sei se exponencialmente – a cifra de candidatos à
docência. Resultado lógico: desemprego...
Consta-me que em Itália já
houve manifestações de professores, que exibiram cartazes e lançaram ditos
virulentos contra tudo o que evita o nascimento normal de crianças, os
futuros alunos: pílulas anti-conceptivas, preservativos, etc. E não se
tratava de uma manifestação confessional, mas tão só de quem vê o futuro
da classe perigosamente ameaçada por esses meios dissuasores da natalidade
natural duma sociedade.
Não sei se será uma boa
sugestão para os sindicatos de professores. Costuma dizer-se, no entanto,
que “em tempo de guerra não se limpam as armas”. E os professores não
podem deixar de entrar em guerra contra quem, todos os anos, lança tantos
e tantos colegas seus no desemprego. É um inimigo claro, concreto,
impiedoso e implacável. |