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Público - 9 Set 03
Não Foi Só Mais Uma Ponte Que Caiu
Por JOSÉ MANUEL FERNANDES
Quando a ponte de Entre-os-Rios caiu arrastou consigo um autocarro,
provocando uma enorme tragédia humana. Foi uma coincidência improvável,
pois a ponte tinha pouco movimento e podia ter caído sem fazer vítimas. Se
isso
tivesse sucedido talvez fosse outro o destino do Governo de António
Guterres.
Domingo, quando a passagem para peões sobre o IC 19 caiu atingiu apenas
dois carros e fez quatro feridos. Foi uma nova coincidência improvável,
pois nos dias normais aquela estrada está coalhada de automóveis e
autocarros. Se o acidente tivesse ocorrido ontem de manhã, fazendo um
número por certo elevado de vítimas, talvez o destino deste Governo
estivesse traçado. Sobretudo se a decisão de reabrir a estrada ao trânsito
na manhã de domingo tiver sido tomada nas condições que o PÚBLICO hoje
divulga.
A história, porém, não se faz de "ses". E, para além desses "ses", há algo
sobre que todos os portugueses se interrogam: será que podem circular em
confiança nas estradas, atravessar pontes, arriscar entrar em túneis? Na
verdade, depois do desastre de Entre-os-Rios, do acidente nas obras do
Metro no Terreiro do Paço, das derrocadas de viadutos em construção em
novas auto-estradas e, agora, da queda da passagem superior no IC 19
existem razões para inquietação.
Durante muitos anos a engenharia civil portuguesa - e em especial a
engenharia de pontes - era motivo de orgulho. Para além de nomes como
Edgar Cardoso, o país possuía um laboratório de investigação de renome
internacional - o LNEC - cujos serviços e competência eram reconhecidos em
todo o mundo. Para além disso, empresas portuguesas de projectistas e de
construção eram consideradas internacionalmente e trabalhavam com
regularidade nalgumas das maiores obras públicas do planeta. Por fim havia
um sentido de serviço público nos organismos do Estado que faziam com que
fosse impensável realizar obras de forma descuidada.
Este quadro geral degradou-se enormemente nos últimos anos. Os organismos
do Estado viram os seus quadros envelhecer e confrontaram-se com a
dificuldade de contratar técnicos novos e competentes por não lhes
oferecerem condições atractivas. No sector particular das estradas, o
desmembramento da JAE agravou a situação, pois facilitou a saída de muitos
quadros históricos. Quanto ao LNEC, o instituto é hoje uma sombra do que
foi no passado, asfixiado por falta de verbas e envelhecido por
incapacidade de renovar os seus quadros. Até a autoridade de fiscalização
que se lhe reconhecia foi em grande parte diminuída.
A tudo isto acresce um quadro geral de desresponsabilização. Os desastres
sucedem-se mas nada acontece aos seus responsáveis. Os inquéritos morrem
sem conclusões e os processos judiciais fenecem na penumbra dos tribunais.
Pior: instalou-se um sistema de trabalho em que o Estado perde o controlo
da obra que encomenda, pois a empresa com quem contrata a obra,
subcontrata-a a outra empresa, que por sua vez a subcontrata a outra
ainda. Quando se chega ao local do acidente, às vezes nem se sabe qual o
empreiteiro que lá estava a trabalhar.
É por isso que não foi apenas a passagem superior do IC 19 a cair ontem:
com ela caiu também a confiança dos portugueses na qualidade das nossas
obras públicas. |