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Público - 1 Set 03
TUDO (NÃO) É POLÍTICO
Por MÁRIO PINTO
ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA. As corajosas e francas declarações da Ministra das
Finanças sobre as medidas tomadas e a tomar em matéria de reforma da
Administração Pública foram absolutamente eloquentes, no contexto dos
regimes jurídicos que lhes subjazem e as condicionam. Mas alguns não
quiseram perceber.
Delas é forçoso concluir que a razão da ambígua «estupidez» das medidas
tomadas de congelamento das novas admissões está em que nenhuma outra
solução é entre nós praticamente possível, em razão dos regimes jurídicos
aplicáveis, bem como das práticas da própria Administração Pública. Isso
quer dizer que estamos condenados a uma alternativa rígida. Isto é: ou
bem que a gestão da Administração Pública continua como
dantes, com as conhecidas consequências, ou bem que se
congelam as novas admissões, com os consabidos efeitos
perversos.
Não haveria forma mais eloquente de mostrar a necessidade da reforma
administrativa, sempre prevista e adiada desde 1976. Antes de tudo, está
em causa o serviço público por «servidores do Estado».
Esta função não pode reconduzir-se a uma questão do
estatuto laboral dos trabalhadores e a uma bolsa de
emprego. A Administração Pública não pode acabar por ser um sistema
de propriedade de postos de trabalho, ou um sistema de propriedade de
carreiras profissionais, em autogestão. Com o maior respeito pelos
funcionários públicos.
BEM CONSIGO PRÓPRIO. Li recentemente, numa destas revistas de sala de
espera, a resposta de um «sexólogo» a uma alegada consulta de alguém que
tinha dúvidas sobre as suas inclinações sexuais, numa situação de
casamento e risco de infidelidade - isto é, numa situação
apimentada como de costume. A resposta divagava por uma
série de banalidades que tanto se inclinavam para sim
como, logo a seguir, para talvez não, mas no fim concluía: «o que
importa é que cada um se sinta bem consigo próprio e com a sua
sexualidade».
Ora aqui está. A primeira coisa que salta à vista é que esta sentença não
tem estatuto científico-profissional. Qualquer «bon vivant» receita a
mesma tese à mesa do café sem cobrar nada. E vale o
mesmo.
Depois, é óbvio, esta receita profissional, tomada à letra, e nada no texto
contrariava uma tal leitura, aplica-se, como uma luva, às pessoas que se
sentem bem consigo próprias e a sua sexualidade em situações como por
exemplo: de infidelidade conjugal, de assédio sexual no trabalho, de
abuso sexual, de pedofilia, etc. Admitindo que o sexólogo
em questão estava mentalmente a excluir práticas
criminosas, resultaria então que, em matéria de
sexualidade, há apenas que evitar o crime - tudo o mais é bom se cada um
se sentir bem consigo próprio. Não se pode evitar a questão: então qual
seria aqui o papel dos sexólogos? Não bastaria consultar os advogados e
perguntar quais são os limites da legalidade estabelecida?
Quanto a cada um sentir-se bem consigo próprio, ele
haverá aí a grande e complexa questão da psicologia e da
medicina, onde os sexólogos têm um papel respeitável e
útil. Mas é impossível excluir, aí também, a questão de
consciência, da ética, da moral, da espiritualidade. E essa? Tal como é
secularmente da tradição dos médicos, os sexólogos de hoje não podem, em
nome da sua ciência e profissão, entrar por estes terrenos, que não
conhecem e portanto em que não são mestres. Se aí
entrarem e aconselharem profissionalmente, estão a
desrespeitar a sua deontologia e provavelmente a ofender
os direitos humanos dos fracos, ignorantes e doentes que os
consultarem.
TELEVISÃO. Pensava-se que o Big Brother teria sido o pior da nossa
televisão. Puro engano. A era pós-Big Brother tem sido de evolução ainda
para pior. Até o serviço público volta às escolhas de tempos que se
julgavam passados, de filmes de violência e sexo. Numa
recente quinta-feira, antes da meia noite, o Canal 2
passava um filme com cenas chocantes, em que um
adolescente se descobria homossexual e por isso era sexualmente violentado
inclusive pela família com o pretexto de o encaminharem na
heterossexualidade.
O Big Brother e programas semelhantes que na altura apareceram levantaram um
grande protesto de todos os quadrantes, especialmente na imprensa
escrita. Mas sem qualquer efeito. Talvez por isso, não se
tem ouvido depois mais nenhum protesto. As televisões
venceram. Vamo-nos acomodando. Em Portugal, hoje em dia,
há protestos por tudo e por nada, mas não pela decência e
moralidade na televisão. Nesta matéria, cada um por si e ninguém por
ninguém. Entre as cadeias de serviço público de televisão, a portuguesa
deve ser a mais comercial e a mais decadente. Alinhando
com a evolução geral dos nossos costumes, e com os
primeiros lugares que estamos ganhando em mães solteiras,
divórcios, sida, etc. Em rigor, já não teremos razão para nos
iludirmos com os nossos brandos costumes, quaisquer que tivessem sido.
Uma cultura da sociedade portuguesa -e quero dizer uma
cultura coerente e interiorizada de convicções e valores,
de princípios e práticas - já não existirá ou quase. As
sondagens também o revelam. O ocidente, liberal,
democrático, humanista e cristão, ganhou aos seus inimigos a questão da
economia e da democracia: hoje, a economia é a de mercado e a democracia
é a liberal e dos direitos humanos. Mas perdeu a questão
da cultura. Com a agravante de que o lado vitorioso não
possui uma proposta alternativa, mas apenas uma proposta
desconstrutiva. Até no Parlamento Europeu já se nota.
Estão para vir tempos difíceis. Aos cristãos fará bem revisitar a sua
história pré-constantiniana.
INCÊNDIOS. Passados os incêndios deste verão, é impossível escrever sem uma
referência a essa catástrofe nacional. Mas para dizer o quê, depois de
tudo o que já foi dito e visto? Que aí se revelaram, mais
uma vez, as nossas maiores qualidades e os nossos maiores
defeitos. De um lado, a heroicidade abnegada e a infinita
capacidade de sofrimento e conformação das horas
trágicas; mas, de outro lado, a mediocridade e o imediatismo da organização
da vida prática. Após a ajuda e a solidariedade, que devem vir primeiro,
sinto alguma tristeza e desalento. Sem dúvida, pelos mortos e arruinados;
mas não menos pela evidência do País desordenado e subdesenvolvido que
ainda somos, sociedade civil e Administração Pública
incluídas - não apenas dirigentes políticos. Salvam-se os
bombeiros voluntários. São um milagre! E dizer que alguns
acharam, com base em alegadas deficiências, motivo para
defender a sua substituição por funcionários públicos!

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