Público - 11 Set 03

A Culpa Foi de Newton
Por EDUARDO DÂMASO

O Instituto de Estradas de Portugal (IEP) concluiu o inquérito ao acidente ocorrido no IC19 com a queda de uma passagem de peões e brindou-nos com duas interessantes constatações: a culpa deve ser repartida pelos camiões que circulam no local com cargas de altura ilegal e pelos defeitos de concepção e estrutura do equipamento que colapsou. Por outras palavras, a culpa deve ser repartida por uma entidade abstracta - os camiões - e por outra igualmente difusa e longínqua, o material da ponte em si que era inadequado. Já agora, acrescentamos nós, por quem comprou e porventura quem vendeu a passagem, há mais de 14 anos. Vá-se lá saber quem...

O resto, a obra que antecedeu a queda da passagem, da responsabilidade do IEP, e a fiscalização da mesma, foi tudo bem feito, nas palavras optimistas do presidente daquele organismo público, apesar de não ter dado informações precisas e detalhadas sobre a preparação da obra, a sua execução e fiscalização, limitando-se a repetir as conclusões do relatório do inquérito. Sejamos compreensivos: a ponte caiu tão só porque estava de pé. Ou seja, a culpa foi de um senhor chamado Newton que nos despertou para essa coisa inevitável da gravidade.

Não brinquemos com coisas sérias. O resultado deste inquérito é igual ao de tantos outros que já morreram nos arquivos do Estado. Não há um único rosto, não há um único nome, não há uma única pessoa ou entidade directamente responsabilizável no plano jurídico, administrativo, financeiro e moral. O IEP lava as mãos com uma espécie de proclamação solene, também já habitual nestas circunstâncias, em que lamenta o sofrimento das pessoas e os inconvenientes causados aos utilizadores do IC19 e afirma assumir toda a responsabilidade pelo acidente. A vacuidade da declaração é total e está na linha da absoluta desresponsabilização produzida pelas conclusões do inquérito, conduzido por técnicos que certamente fizeram o seu melhor mas dificilmente poderiam ir mais longe.

O que está aqui em causa é o que se passa antes de qualquer ponte cair. O que se torna imperioso acabar é com a espiral de negligência criminosa na forma apressada como são construídas centenas de obras públicas no país, como são desprezados requisitos básicos de segurança, como se foi instrumentalizando e degradando uma parte da engenharia portuguesa, acertadas compras de materiais inadequados, negociadas comissões com empreiteiros em ajustes directos que escapam a qualquer regra de concurso público. O reino das obras públicas é também esse mundo opaco das ligações entre empreiteiros e poder político, em que se esvaiu a exigência, a qualidade e o rigor. Como bem se viu no caso trágico de Entre-os-Rios e outros é muito desse mundo sem regras que nasce com uma força inabalável a crescente falta de confiança nos processos de decisão política que raramente têm no horizonte o interesse público.

Portanto, caros leitores, cuidem-se porque, segundo dizem os senhores do IEP, há por aí mais 23 passagens de peões iguais à que caiu e, pelos vistos, as deficiências estruturais que possam ter só são detectáveis depois de caírem. Muito tranquilizador!

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