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Público - 5 Set 03
Livros Efémeros
Por ANTÓNIO GONÇALVES
No início de cada ano lectivo, a romaria é a mesma. Livros e mais livros
para cada estudante e ano de escolaridade, edições e reedições, temas
tratados e reabordados, novos programas que são, na maioria esmagadora das
vezes, programas recauchutados. Como somos um país riquíssimo - nem
sabemos o que havemos de fazer ao dinheiro, ao contrário da tanga (outrora
invocada pelo governo), dos discursos miserabilistas e de outros países
que (erroneamente, claro!) dispõem de índices de desenvolvimento superior
ao nosso - e as famílias se comportam como pavões ufanados, nada
contestando através das ditas associações de pais, há que desembolsar uma
soma (muito) significativa por cada filho estudante. Todos os anos, que os
livros escolares são cada vez mais instrumentos efémeros, de consumo
rápido, e assemelhando-se a iogurtes, com a vantagem destes serem
explícitos ao terem marcados os seus prazos de validade.
Os professores desempenham o papel de colaboracionistas ao ter o
privilégio de escolha dos manuais escolares - em que o espírito analítico
e crítico aplicado na sua ordenação e classificação tem, por vezes,
desembocado na opção por livros portadores de erros científicos - e até
chegam a frequentar acções de formação, lançados por editoras, em que se
regozijam do almoço oferecido ou de uma capa plástica multidesdobrável com
esferográficas multicoloridas. Como se está a ver, um singelo e barato
prato de lentilhas (o controle de custos é uma receita clássica da teoria
económica para o bom funcionamento das empresas) é suficiente para que os
"lobbies" instalados da edição levem a bom termo o seu desígnio. Os
sindicatos também se têm mantido a uma distância cautelar do problema e
atacar o problema de frente é uma situação inimaginável para quem quer que
ocupe a pasta ministerial.
Mas será esta situação inevitável? Imagine-se uma escola que decida não
adoptar manuais e produzir os seus próprios livros, textos de apoio e
meios audiovisuais. Uma situação ideal, talvez, mas que desembocaria nas
quedas do Carmo e da Trindade. Em primeiro lugar, a escola necessitava de
elaborar antecipadamente uma justificação, tipo tese de doutoramento, para
que os serviços da tutela - que não estão todos imunes a esta questão pelo
simples facto de não funcionarem na estratosfera - aceitassem e acatassem
a decisão. Depois, a existir, seria a vez da respectiva associação de pais
torcer o nariz. Por que raio haveria de ser a escola dos seus filhos a
escolher um novo caminho e a ser diferente de todas as outras? Quanto às
editoras, até poderiam desviar o olhar, em primeiro tempo, mas tudo fariam
para que não se repetisse tal afronta ao sacrossanto mercado.
E os alunos? Seria interessante que fizessem uma avaliação retrospectiva
dos manuais que utilizaram ao longo do seu percurso escolar. Mas este
cenário poderia eventualmente esbarrar na indiferença (é uma hipótese
plausível), ser confrontado pelo facto dos livros já terem seguido o rumo
da reciclagem do papel (é uma hipótese muito plausível) ou já terem
deixado de ser editados (é uma hipótese quase certa). Como destinatários
do usufruto dos manuais, a palavra também poderia/deveria ser dada aos
alunos. |