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Público - 15 Set 03
"Leis-espantalhos"
Percorri, recentemente, mais de um milhar de quilómetros das nossas
auto-estradas e de alguns dos nossos IC e IP, conseguindo fazer grande
parte desse percurso a velocidades compreendidas entre os 100 e os 120
km/h. Sei que não darei uma novidade a ninguém se afirmar que muitas
centenas de carros me ultrapassaram nesses momentos, atingindo alguns
deles, certamente, valores superiores aos 180 km/h. Por outro lado, nunca
ouvi qualquer referência a alguém que tivesse sido penalizado por tal
motivo.
Enquanto guiava, não pude deixar de pensar um pouco sobre este problema e
de pôr a mim próprio algumas perguntas.
Para que servem as várias indicações de limite de velocidade espalhadas
pelas nossas estradas? Foram estes limites precedidos de alguns estudos
que a eles conduziram ou limitámo-nos a decalcar valores já estabelecidos
noutros países? Penso que deve ter sido este o caso. Se assim foi, alguém
já se preocupou em comparar o rigor com que esses limites são aplicados
lá, com a permissividade que grassa por cá? Se essa comparação nunca foi
feita ou se, realmente levada a cabo, conduziu aos resultados que podemos
imaginar, não seria mais honesto, mais moral, acabar com os limites de
velocidade? Não será pura hipocrisia lamentar continuamente os nossos
índices de sinistralidade comparando-os com os dos restantes países
europeus e com os dos EUA, fingindo ignorar que possuímos leis que os
podiam reduzir mas que somos incapazes de as fazer cumprir? Não será pura
hipocrisia atribuir as culpas de muitos acidentes ao traçado de algumas
estradas? Passados tantos anos a ventilar esta afirmação, já os condutores
deveriam ter os devidos cuidados e não me parece que sejam muitos os que
têm em conta os defeitos desses traçados. Recordo muitas vezes que ouvi há
tempos um autarca transmontano afirmar que o IP4 é uma boa estrada, mas,
infelizmente, muitos se esquecem de que é uma estrada de montanha e não
uma auto-estrada.
Apesar de ter admitido acima a eliminação dos limites de velocidade, não
quero deixar a ideia de que defendo tal procedimento. Um condutor, por
mais experimentado e exímio que seja (e há tantos por aí) não pode
esquecer-se de que nem o mais bem dotado dispõe de tempos de reacção
infinitamente pequenos e ninguém é capaz de adivinhar a manobra imprudente
que qualquer outro condutor, a poucos metros de distância, é capaz de
praticar, numa pequena fracção de segundo. Simplesmente, penso que só é
contraproducente manter em vigor aquilo a que costumo chamar "leis-espantalhos".
Alguns pardais, tordos e outras aves quejandas só respeitam os espantalhos
até ao dia em que descobrem que eles são incapazes de os punir. O limite
de velocidade não é senão um espantalho. Mas há mais, muitos mais. Sem
pensar muito, ocorre-me, ainda dentro da legislação rodoviária, as
relativamente recentes disposições sobre o uso do telemóvel ao volante. E,
se quiséssemos extrapolar, creio que, dentro da legislação fiscal, ainda
iríamos encontrar uma floresta de espantalhos.
Raul Barroca
Porto |