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Público - 27 Set 03
"Rankings" Ainda Não Fazem Parte das Agendas das Escolas
Por BÁRBARA WONG
Os "rankings" ainda não fazem parte das agendas das escolas. Por razões
diferentes. Algumas justificam que já antes de aparecerem estas "seriações"
os professores reflectiam sobre os resultados dos seus alunos, outras
dizem que não têm essa oportunidade porque o corpo docente está sempre a
mudar.
Por parte dos alunos, por vezes há um interesse que os leva a procurar a
escola por ser muito exigente, ou a fugir dela pela mesma razão, como na
Infanta D. Maria, em Coimbra.
Há quem continue a dizer que estas classificações "valem o que valem" e
que se se tivesse em conta outros critérios, os resultados seriam
diferentes, como refere a presidente do conselho executivo da Escola
Secundária D. José I, em Lisboa, um estabelecimento de ensino que se tem
posicionado entre os últimos e que, no próximo ano lectivo, deixará de ter
ensino secundário para leccionar apenas o 2º e 3º ciclos. Este ano, a
única disciplina que contou para o "ranking" foi Matemática, onde os 15
alunos que foram a exame tiveram em média 5,3 valores.
"Quando os professores chegam à escola nem se apercebem em que lugar é que
ficámos", conta por seu turno João Bento, vice-presidente da Secundária de
Carvalhais, em Mirandela, que se tem mantido entre as mais mal
posicionadas. Em 2001, a sua média geral foi de 6,8, este ano subiu para
7,3. O professor justifica porque é que os colegas não se reúnem:
anualmente, 70 por cento do corpo docente muda. Além disso, continua, o
estabelecimento de ensino é pequeno, tem pouco mais de 80 alunos, entre 3º
ciclo e secundário.
Mas houve outras que tentaram introduzir medidas que lhes permitissem
subir alguns lugares, como sucedeu na Secundária Marquês de Pombal, em
Lisboa, ou na Secundária de Castro Verde. Em ambas, os professores
garantem que tiveram a preocupação de dar um apoio continuado aos alunos
que iam fazer exames nacionais de 12º ano.
Alunos procuram as melhores
Na secundária Homem Cristo, em Aveiro, a procura por parte dos alunos
aumentou. No "ranking" feito em 2002 pelo Ministério da Educação (ME) a
escola ficou em 4º lugar; no do PÚBLICO, situava-se em 34º e, este ano,
desceu para 46º. "Anualmente fazemos estatísticas internas, avaliamos os
resultados dos alunos e tentamos corrigir o que é necessário. Mas trata-se
de um procedimento normal que já tínhamos antes da publicação das listas",
explica Jorge Fernandes, presidente do executivo.
Também na Aurélia de Sousa, no Porto - que nos dois últimos anos foi
sempre a terceira entre as cem melhores, de acordo com o PÚBLICO, mas que
este ano desceu para 15º lugar -, o número de alunos aumentou
"consideravelmente": "o crescimento foi de duas centenas de novos
estudantes", conta Delfina Rodrigues, presidente do conselho executivo. "E
sabemos de casos em que não conseguiram entrar", refere.
De ano para ano o Colégio do Sagrado Coração de Maria, em Lisboa, vê a
fila de pais aumentar por altura das matrículas. Não só os antigos alunos
com filhos a procuram, como há pais que admitem serem os "rankings" que os
movem. Em 2001 a escola ficou em 1º, em 2002 em 5º e este ano está em 14º.
A descida notou-se também na média geral às oito disciplinas, de 14,1 em
2001 para 13 valores, este ano. O grau de exigência mantém-se, embora o
factor aluno varie muito, admite Margarida Marcho, directora do colégio.
"Continuamos pobrezinhos como antes"
Quando se sabem os resultados, os pais são os que melhor se exprimem,
através de telefonemas, telegramas ou pessoalmente, contam as escolas. E
os incentivos prometidos pelo ministro da Educação, David Justino?
Os estabelecimentos de ensino não deram por nenhumas diferenças. Apenas a
Machado de Castro, em Lisboa, recorda um telefonema da tutela por causa do
4º lugar que conseguiram o ano passado a Português A. "Ninguém nos deu
nada, continuamos pobrezinhos como antes. Pedimos que nos arranjassem os
campos de futebol, o laboratório de Biologia, mas nada", lamenta Fernando
Azeiteiro, da Infanta, em Coimbra.
O Instituto de Odivelas - que no ano passado estava entre as melhores na
seriação feita pelo ministério, e que ficou, este ano, em 27º no "ranking"
do PÚBLICO - recebeu as felicitações por parte do chefe do Estado-Maior
das Forças Armadas. Mas "não houve um abrir dos cordões à bolsa, embora
haja boa vontade em nos ajudar", ressalva a directora Margarida Raimond,
que precisa de equipamento multimédia para dar apoio às aulas de línguas.
"Oficialmente nada. Não sei se tem de haver incentivos porque todas as
escolas, independentemente do seu lugar, deveriam ser reconhecidas",
defende Delfina Rodrigues, da Aurélia de Sousa. |