Público - 27 Set 03

A Mais Mal Classificada Atribui Culpa à "Interioridade"
Por ANÍBAL RODRIGUES

São 85 quilómetros que separam a Pampilhosa da Serra de Coimbra, feitos por uma estrada sinuosa e enegrecida por paisagens devastadas pelos incêndios. O caminho leva perto de hora e meia a percorrer de carro. Bem perto da Escola Integrada da Pampilhosa, que acolhe 390 alunos, do pré-escolar ao 12º ano, está um edifício quase pronto, a nova residência de estudantes, que começaria a funcionar já este ano não tivesse o construtor falido e a obra ter de ser adjudicada outra vez.

Dentro da escola, os balneários do campo de jogos foram transformados em salas de aula. Lá dentro, estão os alunos com mais dificuldades de aprendizagem, a quem é dada a possibilidade de optar por concluir o 9º ano com formação em currículos alternativos, revela Vítor Machado, presidente do conselho executivo.

Perante o pior resultado na 1ª fase dos oito exames nacionais do 12º ano mais concorridos, Vítor Machado não tem dúvidas: "A culpa é da interioridade". Mas o professor aponta ainda outros factores que acredita determinarem o insucesso dos alunos. O facto de virem para a escola "às seis, sete da manhã e chegarem a casa às sete, oito da noite", a "falta de apoio familiar" ou o facto de "a maior parte dos alunos só querer fazer o 12º ano" são algumas das justificações avançadas. A reduzida oferta da escola - os estudantes só podem seguir o agrupamento 3 (Económico-Social) - também não ajuda.

Carlos Martins está no curso de electricidade. O aluno, de 17 anos, frequenta o 7º, numa turma com mais 12 colegas. Anteontem. só apareceram oito. Filho de um trabalhador da construção civil e de uma doméstica, Carlos levanta-se todos os dias às 6h15. Mora no Carregal do Sal, a cerca de 35 quilómetros da Pampilhosa. Como o autocarro que o transporta cumpre várias paragens, demora hora e meia a chegar à escola.

A situação do colega Luís Carlos, 15 anos, não é melhor. Vive na Portela de Unhais, a cerca de 45 quilómetros, mas passa a semana na antiga residência de estudantes com mais 14 alunos. Às segundas-feiras, sai de sua casa às
5h30, vai numa carrinha até à paragem do autocarro, que o apanha às 7h00.

A Matemática é o calcanhar de Aquiles da escola, com uma média de exame de 2,6 valores que a "afundou" para uma média geral de 5,9. Como que a prever este desfecho, Vítor Machado decretou que, durante o ano transacto, se leccionasse uma hora extra semanal desta disciplina e de Português B. Vítor Machado, aposta ainda na nova residência de estudantes, com capacidade para 60 alunos, "para tentar inverter a falta de hábitos de estudo e de trabalho" dos alunos.

90 por cento dos docentes mudam todos os anos

Alfredo Leitão, também membro do executivo, sublinha que, dos 16 alunos que no ano passado frequentaram o 12º ano, "só três é que queriam entrar na universidade e dois conseguiram": "Logo, temos uma taxa de sucesso de 66 por cento", conclui.

Apontada como factor de sucesso, a estabilidade do corpo docente é uma característica que não se aplica à Pampilhosa. "Noventa por cento dos professores mudam todos os anos . Como é que se pode fazer um trabalho de acompanhamento pedagógico correcto assim?", questiona. "Tenho aqui meninos do 2º e 3º ciclos que chegam cá e dizem: 'agora é que as minhas férias vão começar', contando que, quando não estão na escola, a vida deles é trabalhar de manhã à noite", conta ainda Alfredo Leitão.

Arménio Lopes, professor na escola há dez anos, lembra também que "aqueles que podiam fazer brilhar a escola vão embora no final do 9º ano", rumo a Castelo Branco, Coimbra ou Fundão.

"Nós estamos na segunda semana de aulas e não temos professor de Português", queixa-se por seu turno João Dias, 17 anos, aluno do 12º. As críticas não se ficam por aqui. "Muito professores fazem viagens longas e às vezes também não trazem grande disponibilidade para ensinar", acusou, sem poupar a própria escola: "Para completar horários põem os professores a dar cadeiras para as quais muitas vezes não têm competência." João Dias lamenta ainda que o órgão de gestão não lhe tivesse disponibilizado um espaço para instalar uma associação de estudantes, a existência de uma sala de informática sem professor ou a impossibilidade de continuar o projecto de uma rádio que já vinha do ano passado.

A colega Marta Duarte, 18 anos, tem Matemática atrasada do 10º e 11º. "Falta de estudo" e o facto "dos professores também não se esforçarem muito", são as justificações que encontra. Mas Marta já tem uma solução para o problema. "Trabalho de dia e, à noite, vou estudar para o Fundão, onde posso trocar a Matemática pela Geografia".

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