Público - 27 Set 03

A Escola Mais Bem Classificada Aposta na "Cultura do Mais"
Por BÁRBARA WONG

No centro da parede está o quadro de lousa preto, ladeado por um crucifixo e uma imagem de Nossa Senhora; no chão, o estrado com a secretária do professor, isolada e virada de frente para mais de vinte pequenas carteiras onde os alunos estão sentados. Assim que o padre Jorge Sena, director do Colégio de São João de Brito, em Lisboa, entra na sala de aula do 10º C, os adolescentes saltam das carteiras e recebem-no de pé. Só se voltam a sentar depois de o director lhes pedir que o façam. Sem constrangimentos, nem inibições, os miúdos perguntam com à-vontade o que faz o PÚBLICO dentro da sala.

O director explica que a escola ficou em primeiro lugar no "ranking" nacional das secundárias. Uns sorriem e comentam, outros nem ouvem a explicação ocupados que estão em dar um jeito ao cabelo para ficarem bem na fotografia. Assim que se fecha a porta, a aula volta ao seu ritmo, sem mais distracções.

Ser responsável, exigente consigo mesmo e contribuir para uma boa convivência entre professores, alunos e "educadores não docentes" (é assim que são designados os funcionários), são algumas das condições que os responsáveis do colégio da Companhia de Jesus procuram incutir nos mais de 1500 alunos, do pré-escolar ao secundário. Estas características contribuem também para o bom desempenho dos seus finalistas nos exames nacionais do 12º ano, acredita o director.

Em 2001, o estabelecimento de ensino ocupava o 12º lugar, no ano seguinte subiu seis posições e outras seis este ano, para primeiro. Apesar de não trabalhar para os "rankings" - "as privadas são sempre avaliadas pelos pais" - ,"nem viver muito" a sua publicação, Jorge Sena salienta que a escola, sempre que há provas aferidas, feitas pelo Ministério da Educação, aos 4º, 6º e 9º anos participa. "Queremos ser avaliados", diz. O colégio aposta ainda na auto-avaliação, feita pelos professores.

Uma escola com "quadro de honra"

No "quadro de honra" da escola estão os nomes dos alunos que têm o melhor aproveitamento escolar, mas não são só: para além dos seus figuram os dos que foram eleitos pelos colegas como o melhor companheiro de turma, o que mais se distinguiu pelo esforço, pela criatividade artística ou o que mais participou na vida do colégio.

Porquê? Porque o objectivo não é premiar apenas os bons desempenhos, mas a pessoa no seu todo. O projecto educativo do colégio assenta em três pilares: além da aposta na qualidade, a escola preocupa-se em fazer um acompanhamento personalizado dos alunos e em "fomentar a capacidade de tomar decisões de forma responsável", enumera o director.

"Queremos passar aos estudantes a cultura do mais: tem de ir mais longe, ser exigente, ser um estudante de qualidade, não se contentar com a mediania", frisa o jesuíta. E, para isso, a escola pode dar uma ajuda, mas não faz o trabalho todo: "Apontamos o caminho, mas queremos que sejam eles a fazê-lo", defende o director. Assim, quando há problemas de aprendizagem, os estudantes são acompanhados pelo gabinete de psicopedagogia.

Como "um bom começo vale para toda a vida", a escola aposta em ter dois professores no 1º ciclo, cuja missão é dar aulas de apoio. Da parte dos docentes há um "vestir a camisola" que lhes permite estar disponíveis sempre que os alunos precisam. "Os professores querem que os alunos sejam bem sucedidos", justifica o director.

Esse apoio vai acompanhando o aluno até ao secundário, pois são muito poucos os que abandonam o colégio quando mudam para este ciclo. Quando chega à época de exames, pode haver aulas extraordinárias, mas não são obrigatórias, pois depende da dinâmica de cada turma.

Alunos participam em campanhas de solidariedade

No recreio do 1º ciclo os miúdos, todos de bata azul-claro com o símbolo do colégio bordado, estão debruçados sobre as mesas de matraquilhos, voam nos balouços ou deslizam pelo escorrega. Há ainda quem faça círculos com pedras da calçada para lançar os piões, que não são dos de madeira, mas de plástico e têm um mecanismo que substitui a corda. Assim que vêem o director, os miúdos aproximam-se, há um que o cumprimenta com um "dá cá mais cinco", outro corre desenfreado e grita: "Tudo fixe?" Mas a maioria sorri e diz simplesmente: "Olá."

"É o padre Sena, não é?", pergunta um menino do 1º ciclo, junto à mesa dos matraquilhos. O director confirma e aceita o convite para jogar um bocado.

A escola foi criada em 1947 e tem como lema "Educar para servir". Desde o 1º ciclo que os estudantes estão integrados em actividades de ajuda aos outros. Quando chegam ao secundário, um terço dos alunos mantêm essas dinâmicas, em regime de voluntariado.

Dar apoio no estudo a garotos de outras escolas, em lares de crianças, de idosos, durante as campanhas do Banco Alimentar são algumas das acções de solidariedade em que participam. "Isso não é paternalismo, não é dar esmola, é dar e receber, porque os outros também têm dons para partilhar connosco", defende Jorge Sena.

Estas actividades não prejudicam o rendimento dos estudantes, garante o director. Afinal, enquanto estão ocupados, estão a ser úteis.

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