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Diário de Notícias - 1 Set 03
Dinheiro e felicidade
João César das Neves
Portugal é muito mais rico do que era há 50 anos, mas as pessoas não estão
mais satisfeitas. Este surpreendente paradoxo não é apenas português. Em
toda a sociedade moderna os avanços e melhorias são impressionantes, como
quer que se meçam, mas o mal-estar e a desorientação são indiscutíveis. É
caso para voltar à velha questão de saber se «o dinheiro dá felicidade».
Este enigma da vida moderna começa agora a ser estudado pela ciência
económica. Um cientista inglês colocou recentemente a questão nestes
termos: «As pessoas no Ocidente não se tornaram mais
felizes nos últimos 50 anos.Estão mais ricas, trabalham menos, têm mais férias,
viajam mais, vivem mais tempo e são mais saudáveis. Mas
não estão mais felizes. Este facto chocante deve ser o
ponto de partida de muito da nossa ciência social.» (Layard,
Richard (2003) Happiness: has social science a clue?, Lionel Robbins
Memorial Lectures, LSE, 3-5/Março/2003; 1:14). Hoje é possível medir
isto, pois a jovem disciplina da Psicologia Económica,
galardoada com o prémio Nobel de 2002, conseguiu aqui
resultados muito interessantes. Naturalmente que a
abundância e a prosperidade trazem satisfação e
utilidade. Mas existem vários factores que reduzem muito esse ganho. Um dos
mais importantes é o efeito relativo. Um progresso, por mais notável que
seja, pode ser quase anulado se os vizinhos tiveram um benefício
superior. Nós em Portugal temos um exemplo bem evidente
disso através do conceito de «convergência». Todos fomos
educados a medir o nosso sucesso pela aproximação aos
parceiros da UE. Assim, o nosso avanço, por mais incrível ou
impressionante que seja, parece-nos sempre menor, porque apenas conta a
«convergência» que conseguimos face aos ricos. Na
nossa sociedade eminentemente competitiva é possível ter muito mais e não
se sentir melhor. Por mais que consigamos estamos sempre insatisfeitos,
porque queremos ser o melhor do mundo. Uma outra manifestação do mesmo
problema sente-se na proliferação dos concursos, campeonatos e despiques.
A diferença fundamental entre um exame e um concurso é
que no primeiro conta a classificação absoluta, enquanto
no segundo só interessa o lugar relativo. Num exame
passam todos os que atinjam certo nível, mas no concurso só ganha
o primeiro e, por isso, existe apenas um satisfeito no meio de dezenas de
derrotados.
A mesma análise refere razões mais profundas para a falta de felicidade na
abundância. Com a ciência capaz de medir a felicidade, a partir de
inquéritos, experiências comportamentais e outros estudos, é possível
também determinar as suas fontes e assim identificar os
factores de satisfação que a prosperidade nos fez perder.
O homem do Racionalismo e do Positivismo apostou tudo no
avanço da ciência e da técnica. E ganhou abundantemente com
isso. Os benefícios materiais que conseguiu foram superiores aos seus
sonhos mais ambiciosos.
Mas os espantosos progressos nos cuidados de saúde, no rendimento, no
conforto, na segurança social, no emprego, na liberdade política e
social, factores centrais da felicidade, não chegam. Eles
foram, segundo o estudo, acompanhados por perdas fulcrais
em três outros elementos igualmente relevantes. Enquanto
a sociedade moderna não conseguir recuperar a religião, a
família e o sentido da honra, manter-se-á este estranho paradoxo de o
dinheiro não trazer felicidade.

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