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Público - 21 Set 03
O Ensino, a Educação Começa em Casa
Nos canais de televisão tem sido muito atacado o valor exorbitante que as
famílias gastam com a abertura do ano escolar. O principal alvo é a
exigência dos estudantes de produtos de marca, para não ficarem mal vistos
na competição da ostentação com os colegas. Atacam as grandes superfícies
por procurarem atrair os clientes para os produtos mais caros. Atacam a
publicidade por exercer grande poder de influência no potencial
consumidor.
Para cúmulo, li no suplemento dominical de um jornal diário as palavras de
uma mãe: "Como é que eu explico à minha filha de seis anos que ela não
pode ter aquilo que todos os outros têm? Que ela deve aguentar porque o
orçamento familiar não dá?"
Como não consigo ficar indiferente a uma situação tão "dramática", penso
que poderá ser útil lembrar a muitas pessoas, como essa mãe, que o ensino,
ou melhor a educação, começa em casa, quando ainda se pode "torcer o
pepino", e que há além de outras, estas três coisas que é imperioso e
urgente ensinar aos filhos:
1. As pessoas devem dar mais valor à originalidade, à inovação, à
criatividade nas soluções, do que à imitação, à cópia e ao seguidismo da
moda e do que vêem nos outros. É degradante ver os meninos da escola todos
com mochilas com o mesmo boneco. Parece uma formatura de militares!!
2. A publicidade não é feita para benefício do consumidor, mas sim para
lucro do produtor e do vendedor. Cada consumidor deve avaliar as suas
necessidades e ver, de entre os produtos existentes, qual o que mais lhe
interessa, atendendo ao dinheiro de que dispõe e às outras despesas que
tem de fazer. Estou de acordo com as técnicas de venda dos hipermercados e
com todos os tipos de publicidade, desde que não seja enganosa e que não
recorra a imagens de violência ou de imoralidade. As pessoas reflectem
sobre ela e, depois, são livres de tomar as suas decisões. Recebo vários
telefonemas por semana a quererem vender-me maravilhas; ai de mim se não
soubesse pensar e dizer que não estou interessado!!
3. O dinheiro é um bem finito. Aquele que se gasta na guloseima deixa de
estar disponível para o lápis e a borracha ou o caderno. Habituar os
miúdos à mesada ou semanada pode ser útil para aprenderem a gerir o
dinheiro, sabendo o seu valor e os seus limites, e a importância da
pequena poupança para fazer face a necessidades advindas.
Claro que há pessoas, como a referida mãe, que não sabem dizer não aos
filhos e aproveitar a oportunidade para lhes explicar estas coisas que são
lições práticas da vida. Mas sem estas lições na tenra idade, está-se a
criar uma geração de futuros empresários e políticos incapazes de gerir os
interesses das empresas e do país. E... depois, como será o país? Que
futuro irão ter esses meninos de hoje? Ser pai exige muita
responsabilidade. "Quem dá o pão, dá a educação".
A. João Soares
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