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Público - 24 Set 03
Presidente do Banco Mundial Quer Um Maior Equilíbrio Entre Países Ricos
e Pobres
Por ARTUR NEVES
"O nosso planeta não se encontra equilibrado. Muito poucos controlam
demasiado e demasiados têm muito pouco com que contar". Foi nestes termos
que James Wolfensohn, presidente do Banco Mundial, se dirigiu ontem aos
delegados dos 184 países presentes na assembleia anual conjunta da
instituição que lidera e do seu irmão gémeo, o Fundo Monetário
Internacional (FMI), que se realiza no Dubai, capital dos Emiratos Árabes
Unidos, lançando uma violenta crítica às políticas dos países ricos.
Wolfensohn recordou que o que o conjunto destes países despende anualmente
em ajuda ao desenvolvimento não vai além de 56 mil milhões de dólares, o
que contrasta fortemente com os 300 mil milhões de dólares gastos em
subsídios à agricultura e os 600 mil milhões de dólares canalizados para
despesas militares.
O presidente do Banco Mundial defendeu a argumentação dos países mais
pobres na recente conferência interministerial da Organização Mundial do
Comércio (OMC), que se saldou por um rotundo fracasso. "Dois terços dos
pobres do mundo dependem da agricultura para a sua subsistência. O que
vêem os países em desenvolvimento? Vêem que as nações ricas colocam em
cima da mesa propostas que não respondem aos seus pedidos neste domínio
crucial", acusou. Em Cancún, os países pobres "acharam também inaceitável
uma concepção das negociações em que se espera essencialmente que
respondam a propostas formuladas pelos países ricos", acrescentou, citado
pela Lusa.
Mas os países pobres também não escaparam às críticas de Wolfensohn, que
recordou que estes gastam anualmente mais em defesa - 200 mil milhões de
dólares - do que em educação, ao mesmo tempo que admitiu que "não há
suficientes esforços corajosos e consistentes para combater a corrupção,
particularmente nas esferas de influência mais elevadas".
Das promessas de Snow à paciência da China
No entanto, após o discurso de Wolfensohn, as atenções viraram-se
imediatamente para a conjuntura económica dos países mais ricos. Com a
multiplicação recente dos avisos de que o défice das contas públicas dos
EUA constitui uma ameaça ao crescimento da economia mundial, o secretário
do Tesouro norte-americano procurou ontem tranquilizar os seus pares.
Depois de declarar que o défice "surgiu por causa de uma recessão e dos
esforços para a combater" e de que era política económica elementar
combater uma recessão através de um défice, John Snow não deixou de
afirmar que o seu actual nível - a caminho dos 500 mil milhões de dólares,
mais de quatro por cento do produto interno bruto (PIB) - era para si uma
causa de inquietação. Snow mostrou-se convicto que é possível "reduzi-lo
para metade nos próximos cinco anos, o que o traria claramente para menos
de dois por cento do PIB". Uma questão de fé. Citado pela AFP, o
responsável das Finanças da Administração Bush declarou que tal será
possível através de maior controlo sobre a despesa e porque a economia dos
EUA deverá crescer a uma taxa anualizada entre 3,5 e quatro por cento, não
só nos próximos trimestres mas também de uma "forma duradoura". (O
referido intervalo não foi escolhido por Snow ao acaso, uma vez que é
consensual que terá que ser a esse ritmo que a maior economia do mundo
terá que crescer para que o seu desemprego não aumente, tendo em conta a
dinâmica demográfica dos EUA.)
John Snow foi completamente omisso quanto à questão dos níveis das taxas
de câmbio, assunto que tem dominado a actualidade nos mercados financeiros
depois de no fim-de-semana o G7 ter apelado a uma maior flexibilidade
daquelas, o que foi interpretado como uma sinalização do abandono da
política do dólar forte. Uma outra interpretação foi também a de que as
economias asiáticas deveriam operar com divisas mais fortes, algo que tem
vindo a ser reclamado há algum tempo pelos EUA. O ministro das Finanças da
China, país que tem sido particularmente visado pelos EUA, aproveitou para
ontem afirmar que Pequim "tomava nota da inquietação" dos sete principais
países do mundo industrializado (e do FMI) quanto à cotação do yuan, mas
explicava que esta era compatível com "um desenvolvimento económico e
financeiro não só da China como da região e do mundo". Num exercício de
retórica, Jin Renquing repetiu as intenções de Pequim de "melhorar o
mecanismo de gestão da taxa de câmbio do yuan" - a divisa chinesa
encontra-se indexada ao dólar desde 1994 - mas não avançou com nenhum
calendário. Jin indicou no entanto que esse mecanismo será modificado
paralelamente com o aprofundamento das reformas financeiras que o país tem
em marcha, com destaque para "a liberalização dos movimentos de capitais,
a remoção progressiva dos limites para o uso de divisas estrangeiras bem
como a supervisão e o ajustamento da balança de pagamentos". Ou seja,
Pequim não dá o braço a torcer no que ameaça transformar-se um conflito
cambial com o mundo industrializado. |