Se os economistas não são oráculos, podemos
recorrer aos historiadores? José Manuel Fernandes
Esta não é a primeira crise, nem será a última. Não
é tão grave como a de 1929, mas podem vir aí males
maiores se não soubermos retirar lições da História
Os judeus costumam dizer que são um povo que caminha
às arrecuas: viram as costas ao futuro porque têm os
olhos postos no passado. Outros dirão que caminham
às cegas: enfrentam o futuro mas não sabem de onde
vêm nem para onde vão. E a virtude estará
provavelmente no meio: conhecer o passado pode
ajudar-nos, pelo menos, a não cometer os mesmos
erros no futuro.
Talvez por isso, para além de pedirmos apenas aos
economistas que nos expliquem o que se passou e o
que devemos fazer, seja importante dar também a
palavra aos historiadores. Mas sem esperar que sejam
oráculos, pois, como quase tudo em Marx - que tinha
várias costelas de historiador entre as de
economista e filósofo -, a sua ideia de que a
História se repete sempre está longe de ser
científica. Mas alguma sempre se repete.
Talvez por isso algumas das previsões mais
categóricas de que os Estados Unidos caminhavam para
uma crise financeira tenham sido feitas por um
historiador mal-amado pela esquerda, Niall Ferguson,
num documentário do britânico Channel 4 emitido
em2004. Título? Colossus. Tema? A ascensão e queda
do império americano.
Historiador inglês, autor de Empire, um estudo sobre
a ascensão e queda do império britânico, Ferguson
dedicou-se entretanto a um tema aparentemente
diferente, mas muito próximo: o seu mais recente
livro chama-se The Ascent of Money, a Financial
History of the World. Na sua opinião, ao colocar em
perspectiva os momentos que vivemos, e recordando
quatro milénios de convívio com o "dinheiro",
Ferguson considera que tem havido alguma
sobre-reacção nesta crise financeira e que, "apesar
de ser a mais importante desde 1970, é altamente
improvável que cause uma calamidade macroeconómica
como a dos anos 1930", como escreveu recentemente no
The Guardian.
Este aparente optimismo - e a verdade é que, apesar
de todo o histerismo nas bolsas, ninguém prevê uma
contracção económica violenta - resulta de acreditar
que "a extinção dos bancos de investimento mostra
apenas como funciona um sistema financeiro
darwiniano". Mas, acrescenta, "tal choque não nos
catapultará de volta à Idade da Pedra".
Claro que há perspectivas diferentes. O mesmo The
Guardian publicava ontem um trabalho sobre a
possibilidade de suceder à nossa civilização o mesmo
que sucedeu à civilização Maia, isto é, desaparecer.
A tese que desenvolve não é especialmente original,
pois é uma variação por comparação com a que serviu
de ponto de partida a Jared Diamond no seu livro
Collapse: How Societies Choose to Fail or Succeed.
Diamond partiu do exemplo da civilização
desaparecida da Ilha da Páscoa para mostrar como a
exploração até aos limites dos recursos naturais
tinha acabado por destruir os ecossistemas e tornar
insuportável a vida de uma comunidade rica e culta.
O Guardian escreve que foi devido à conjugação de
três factores - excesso de população, desastre
ecológico e lideranças fracas - que os construtores
das imponentes pirâmides do Iucatão se perderam como
potência e como civilização. Sintomaticamente, ao
lado de uma pirâmide Maia, o Guardian mostra-nos a
fachada do Banco de Inglaterra...
O paralelo pode ser excessivo, ou é mesmo excessivo,
mas alerta-nos para a necessidade de colocarmos a
crise actual em perspectiva - ou seja, permite
realizar por um outro caminho a mesma reflexão de
Niall Ferguson. Só que para chegar a conclusões
menos optimistas: o ponto agora deixa de ser saber
se esta é ou não uma crise financeira devastadora
para a economia real, mas o de saber se esta é
apenas uma pequena crise se pensarmos no que teremos
de enfrentar se não debelarmos alguns problemas
planetários de sobrepopulação, crise ambiental e,
por que não referi-lo também, falta de lideranças
fortes.
Ora há um ponto comum entre estas duas abordagens: a
ideia de que é impossível viver demasiado tempo
acima das suas possibilidades. Ideia que é
verdadeira tanto para o sobre-endividamento dos
Estados Unidos (ou de Portugal) como para o ritmo a
que consumimos recursos naturais vitais. Se a crise
não nos chegasse pelo lado da "bolha do crédito
imobiliário", chegar-nos-ia - como já estava a
chegar - pelo lado da escassez dos recursos e da
nossa recusa em mudar de hábitos ou renunciar a
certos consumos (o que sucedeu com o preço do
petróleo este Verão pode ter sido apenas uma pequena
amostra do que nos espera quando regressarmos, se
regressarmos, a uma nova era de crescimento).
Daí que, como recentemente desabafava um banqueiro,
se "todos sabiam que iam chocar com o muro e ninguém
foi capaz de travar", isso sucedeu porque nem o mais
inspirado dos economistas previu a dimensão da
actual crise. Os historiadores podiam ter dado uma
ajuda. Pelo menos um deles, Ferguson, fez uma
previsão mais acertada...