Número de nascimentos está a aumentar este ano Alexandra Campos
Especialistas dizem que é preciso esperar para ver
se a tendência se confirma. Mas a quebra da
natalidade foi parada, dizem os números
Depois de dois anos consecutivos de quebra acentuada
da natalidade - fenómeno que nos fez atingir mínimos
históricos -, o número de nascimentos está a
aumentar este ano. Mas é demasiado cedo para
festejar, avisam os especialistas.
Primeiro os factos: até ao final de Setembro, o
Instituto de Genética Médica Jacinto de Magalhães
fez mais 2100 "testes do pezinho" do que no mesmo
período de 2007. A manter-se esta tendência até ao
final do ano, vamos poder dizer, com alívio, que
este ano nasceram mais cerca de dois milhares de
bebés, prevê, satisfeito, o presidente da Comissão
Nacional do Diagnóstico Precoce, Rui Vaz Osório. "Os
últimos anos foram muito maus", lembra este
responsável, sugerindo que pior era quase
impossível: "Estávamos a bater no fundo...".
Exagero? Nem por isso: em 2006, nasceram quase menos
quatro mil crianças do que em 2005 e, em 2007, o
fenómeno repetiu-se, com a quebra de nascimentos a
rondar os três mil e o saldo natural a revelar-se
negativo, o que não acontecia desde a gripe
espanhola de 1918; o número médio de filhos por
mulher em idade fértil desceu para 1,33, o mais
baixo de sempre (2,1 é o necessário para garantir a
substituição de gerações).
Aumento pouco significativo
Os "testes do pezinho" são um indicador bastante
fiável das oscilações da natalidade em Portugal. O
Instituto de Genética Médica Jacinto de Magalhães,
no Porto, centraliza a análise das amostras de
sangue recolhidas através da picada no calcanhar do
recém-nascido, e são poucos os bebés que escapam:
estas análises cobrem actualmente 99,6 por do total
dos nascimentos.
Entre Janeiro e Setembro deste ano, foram feitos
78.578 testes. O ano arrancou logo bem, com mais de
dez mil análises em Janeiro. Julho voltou a ser um
mês muito produtivo, tal como Setembro. À excepção
de dois meses, em todos os outros houve mais
nascimentos do que em 2007 e dificilmente este saldo
positivo será alterado até ao final do ano.
Os demógrafos e os sociólogos olham, porém, com
cautela para este acréscimo que não chega sequer
para compensar a perda verificada entre 2006 e 2007.
"O aumento não é muito significativo", comenta Mário
Leston Bandeira, presidente da Associação Portuguesa
de Demografia. Para além de os números ainda serem
provisórios, "esta pode ser uma variação puramente
conjuntural", acentua.
Uma variação idêntica a tantas outras que se têm
verificado ao longo dos últimos anos (ver gráfico).
"Aquilo que para já não passa de um bom sinal apenas
se tornará uma boa notícia se esta tendência se
confirmar nos próximos anos", defende.
Efeito dos incentivos?
"Podemos estar aqui perante dois cenários", especula
a demógrafa Ana Fernandes, docente na Escola
Nacional de Saúde Pública. Este número pode
representar simplesmente uma variação conjuntural,
justificável, por exemplo, pela eventual existência
de mais mulheres em idade fértil, ou pode ser uma
situação conjuntural provocada pelas novas políticas
de incentivo à natalidade anunciadas em 2007 pelo
Governo (abono para grávidas, reforço do abono de
família em função do número de filhos). "Inclino-me
mais para a primeira", diz, sublinhando que o
acréscimo de bebés não se traduz necessariamente num
aumento da fecundidade. "Não me parece que este
aumento seja uma tendência na sociedade portuguesa,
nem que as medidas anunciadas sejam suficientemente
eficazes." Ana Fernandes recorda o pico de
nascimentos verificado em 2000 para sustentar que
não se pode estabelecer um paralelo. Esse pico foi
"explicado pelo guterrismo" - a conjuntura era
positiva, com a possibilidade de compra de novas
habitações, maior estabilidade no emprego, entre
outras condições. "Não é essa a situação actual",
frisa.
Também Sofia Aboim, socióloga e investigadora do
Instituto Superior de Ciências do Trabalho e
Empresa, defende que é preciso esperar para ver o
que acontece nos próximos anos. "Estas flutuações
anuais podem ficar a dever-se a uma série de
factores aleatórios. Tenho dúvidas de que a taxa de
natalidade aumente muito na próxima década, sem que
haja uma melhoria das condições económicas".