Brecha na muralha da civilização João César das Neves
O casamento é uma coisa impossível. A simples
descrição chega para o constatar. Duas pessoas
unidas para toda a vida e dedicadas às mais difíceis
tarefas da humanidade - educar crianças, aturar
jovens, assistir a idosos - é uma clara
impossibilidade. Quem tentar a experiência
imediatamente confirma os enormes obstáculos que se
levantam ao que inicialmente parecia um doce
romance. Não existem casais sem problemas. Há os que
os ultrapassam e os que não os ultrapassam. Todo o
verdadeiro amor passa pela cruz.
Essa impossibilidade, no entanto, tornou-se há
séculos comum e habitual graças a uma das mais
extraordinárias forças do planeta, a civilização.
Controlando e elevando os instintos básicos do ser
humano, a civilização consegue maravilhas,
realizando até impossibilidades práticas, como o
casamento, democracia, matemática, ópera ou doçaria
regional.
Infelizmente de vez em quando aparecem uns políticos
que, descobrindo com surpresa aquilo que toda a
gente sempre soube, decidem usar a lei para atacar a
civilização. Aconteceu recentemente entre nós com as
iniciativas legislativas sobre o divórcio.
Argumentando que a vida conjugal é difícil e por
isso falha com frequência, deduzem a necessidade de
enfraquecer o laço legal que a consagra. Assim as
instituições e regulamentos deixam de apoiar e
suportar a cultura para passar irresponsavelmente a
promover a barbárie.
Esta atitude não é rara. Pelo contrário, repete-se
sucessivamente ao longo das épocas. Por exemplo, no
tempo dos nossos avós verificou-se um processo
semelhante com o tratamento do diálogo intercultural.
Pode dizer-se que as relações harmónicas entre povos
e costumes diferentes são uma impossibilidade
social. A atitude normal seria o desentendimento,
como mostram séculos de guerras e conflitos. Também
aí a civilização conseguiu avanços importantes e
muitos lugares sempre viveram episódios pacíficos de
sociedades plurirraciais. Mas há 80 anos alguns
políticos europeus, constatando as evidentes
dificuldades na relação entre os povos, decidiram
eliminar as leis que a promoviam e publicar
legislação racista e nacionalista. O resultado foi a
infâmia nazi e o holocausto judeu.
Temos também exemplos inversos, com a política a
fazer esforços monumentais para nos levar a praticar
algo que pode ser considerado uma impossibilidade.
Proteger o ambiente, salvaguardar a paisagem e
defender as espécies vivas não está nos instintos
naturais do ser humano. Só a civilização o pode
concretizar. Precisamente por isso os nossos
governantes estão intensamente dedicados a criar
leis e instituições que nos orientem nesse sentido.
Pena que tomem atitude inversa na família.
A civilização é uma construção vasta e complexa,
continuamente sob fogo de ataques da barbárie. Por
isso em todas as gerações existe sempre algum
cantinho que ameaça ruína. Uma vez rompida a muralha
defensiva, a selvajaria penetra na sociedade e
pratica terríveis devastações. As consequências
desastrosas são depois corrigidas a custo pelos
descendentes, que censuram amargamente os
progenitores. Os nossos avós foram racistas, os
nossos pais, poluidores. Nós, repudiando fortemente
esses erros, fazemos todos os esforços para reforçar
as respectivas zonas da fortificação, com leis e
campanhas que defendam a cultura. Só que ao fazê-lo
deixamos desprotegidas outras áreas, onde se
travarão as batalhas futuras.
Esta mistura ambígua de civilização e brutalidade é
visível hoje como sempre. Perante os problemas, cada
época saltita entre uma posição de combate ou
tolerância. A sociedade ocidental luta com ardor
pela justiça social e consciência ambiental, ética
empresarial e diálogo intercultural, onde os seus
antepassados cederam. É inflexível em tantos
aspectos, que pode parecer estranho que ceda à
crueza mais boçal nas leis familiares. Ninguém nos
ganha em sofisticação científica e artística, mas as
nossas atitudes perante divórcio e promiscuidade,
aborto e eutanásia, pornografia e prostituição
horrorizariam até a tribo mais primitiva.