Não se riam dos islandeses para eles não se rirem
de nós Rui Ramos
A economia mundial, nos últimos dez anos, cresceu
como nunca. Nós não. Não pudemos
É sempre assim: há crise no mundo, e logo os
portugueses se declaram em situação de "oásis". Com
os centros comerciais ainda abertos e o Governo
entretido com as casas decimais de uma estagnação
subitamente lisonjeira, a tribo inteira tem-se
juntado à volta dos seus velhos ídolos para gozar a
versão ao contrário da fábula da cigarra e da
formiga. Onde estão agora as Irlandas aplicadinhas e
trabalhadoras que nos diziam para imitarmos? Esses
países que andavam no topo de todas as boas tabelas
onde nós aparecíamos em baixo - onde estão eles,
esses "modelos", essas formigas, que durante tanto
tempo nos fizeram sentir cigarras no Inverno?
Estamos vingados.
Imagino que no Chade ou no Burkina Faso sintam o
mesmo. Porque também eles, na crise actual, são
"oásis". Mas não são oásis só agora, nos maus
tempos. Também já eram oásis antes, nos bons tempos.
Como nós. Se a recessão vier, será certamente menor
em Portugal do que na Islândia, na Irlanda ou na
Espanha, pela simples razão de que a prosperidade
também foi. A economia mundial, nos últimos dez
anos, cresceu como nunca. Houve países que apanharam
o comboio - talvez de mais. Nós não. Por virtude e
sabedoria? Não: porque não pudemos. A nossa pobre
bolha estourou muito antes da dos outros, em 2001, e
só o euro nos poupou um transe argentino. Não temos
bancos em colapso. Mas também nunca tivemos bancos
capazes de atrair poupanças de outros países.
É verdade que um país pequeno não depende apenas de
si próprio. É improvável prosperarmos quando todos
estão em dificuldades. Mas o grande facto, nesta
última década, foi este: empobrecemos relativamente
quando tantos outros enriqueciam. Por isso, não se
riam dos islandeses: é que eles, com mais razão,
podem rir-se de nós.
Já na "crise mundial" de 1929-1931, como disse
Salazar e confirmam os historiadores, fizemos de
oásis - um dos países menos castigados na Europa.
Porquê? Porque éramos dos mais pobres e dos mais
desligados da circulação de bens e de capitais que
fazia crescer a riqueza no mundo. E quem queria
viver na casinha portuguesa, com o pão e vinho sobre
a mesa? Os portugueses, não. Mal puderam, depois da
II Guerra Mundial, emigraram às centenas de
milhares.
A nossa última golpada foi a do euro. Aproveitámos
para nos endividar até aos nossos limites -
infelizmente muito mais baixos, como se viu, do que
os dos islandeses. Os islandeses e os irlandeses
podem estar agora em sarilhos. Mas desenvolveram
hábitos, competências e contactos que os habilitaram
para explorar os recursos da economia global - e que
lhes hão-de servir para o fazer outra vez, quando a
ocasião se proporcionar. Um dos nossos problemas é
este: criarmos neste país o ambiente e os recursos
necessários para detectarmos e tirarmos partido de
oportunidades, como os islandeses. Podemos tentar
ser mais prudentes ou esperar ter mais sorte, mas
não nos podemos imaginar dispensados de esforços - e
de riscos.
Perguntar-me-ão: não seria possível optarmos por
guardar rebanhos, numa arcádia pobre, mas decente?
Sim, na condição de aceitarmos o nível de vida e de
protecção social correspondentes a uma nação de
guardadores de rebanhos. Mas, considerando o nosso
endividamento e os "direitos sociais" que por lei
nos atribuímos a nós próprios, não me parece que
Alberto Caeiro represente exactamente as aspirações
dos seus compatriotas.
Em 2005, os actuais ministros explicaram-nos que a
solução para a nossa "crise" era o "crescimento". O
que é que tem crescido em Portugal? Além do
desemprego, o Estado. Bem sei que pelo mundo,
durante as últimas semanas, muita gente voltou ao
altar do Estado. Em Portugal, foi crença que nunca
nenhum missionário liberal nos fez perder. Mantemos
um dos Estados que, na Europa, mais gastam em
relação à riqueza nacional e mais cobram atendendo
ao nível de desenvolvimento do país. É talvez um
óptimo mecanismo para tentarmos viver à custa uns
dos outros, como dizia Frédéric Bastiat. Mas não se
deveria ter notado já, se fosse também bom para
criar ou ajudar a criar riqueza?
A tragédia seria deixarmos o espectáculo da "crise
financeira global" distrair-nos da nossa crise local
- a crise de um país onde, nos últimos trinta anos,
as pretensões reflectidas no "modelo social"
aumentaram, mas as taxas médias de crescimento
económico diminuíram. O contraste, como alguns já
perceberam e todos já começaram a sentir, é
insustentável. Há escolha, claro: ou renunciamos aos
"direitos", ou temos de deixar de ser este oásis que
só consegue acompanhar os outros a descer.
Historiador