Há que distinguir o mercado do dinheiro do mercado
de acções
Foi travada a onda de pânico nos mercados do
dinheiro. Evitou-se o colapso do sistema mundial de
crédito, que seria uma tragédia. Aconteceu depois da
adopção pela zona euro do plano de recuperação da
confiança nos bancos, inspirado no programa de
Gordon Brown. Um plano já assumido por toda a União
Europeia e até pelos Estados Unidos.
É um plano assente na ilimitada liquidez
disponibilizada pelos bancos centrais; nas garantias
estatais aos depósitos, à sobrevivência de bancos e
às dívidas que a banca tenha dificuldade em pagar; e
na tomada de posições accionistas em bancos por
parte dos Estados. Foi por isso que as taxas de juro
do mercado, com a Euribor e Libor, começaram
finalmente a descer. Assim, o crédito não vai secar.
É o mais importante.
Muitos não perceberam a distinção entre o mercado do
dinheiro e o mercado de acções. As bolsas evoluíram
na semana passada em montanha russa, subindo e
descendo. O nervosismo bolsista tem a ver sobretudo
com a perspectiva de recessão económica, afectando
os lucros das empresas e desvalorizando as acções.
As próprias intervenções estatais nos bancos
implicam (e bem) prejuízos imediatos para os
respectivos accionistas, com reflexos nas cotações
bolsistas.
São já visíveis estragos no crescimento económico e
no emprego. E a procissão ainda vai no adro. A
própria economia chinesa irá abrandar. É improvável
que Portugal escape à recessão, até porque o nosso
principal cliente, a Espanha, está em forte travagem
económica.
A crise veio ajudar o Governo num ano eleitoral. É
algo que vem de fora, de que somos vítimas e não
responsáveis. E permite justificar despesismos, com
a bênção da Comissão Europeia. Uma política correcta
ou eleitoralista?
O Governo apresentou o Orçamento mais expansionista
da última década, alegadamente para dinamizar a
economia em tempo de crise. Só que o Estado
português apenas se encontrará em posição de
prosseguir políticas anticíclicas quando tiver, de
facto, saneado as contas públicas. O Governo avançou
aí, mas ainda está longe da meta, em particular na
redução estrutural da despesa corrente do Estado.
Transmitir a ideia de que a consolidação está feita
dá jeito, mas é falso. O economista do FMI que segue
Portugal, James Daniel, disse ao Jornal de Negócios
de quarta-feira passada que "não será com
investimento público que se conseguirá evitar o
abrandamento ou a provável recessão que se
avizinha", porque "a ferramenta orçamental
portuguesa está partida".
Há três dias, neste jornal, Luís Campos e Cunha
explicou porque é preciso repensar os grandes
projectos de investimento público. Ainda que se
considere que o investimento público, limitado no
passado recente, é agora necessário, importa
verificar a sua qualidade. Serão investimentos que
produzirão retorno, pagando-se a prazo?
Um projecto como o TGV não parece ter retorno algum.
Isto, quando ainda não existe uma linha de
caminho-de-ferro para mercadorias entre Sines e
Espanha. Como o TGV é um empreendimento caríssimo,
teremos de nos endividar ainda mais - e o crédito
será agora bem mais caro. Não o reavaliar nas
circunstâncias novas e excepcionais que estamos a
viver (e que já levou a rever tanta coisa) não é só
teimosia, é irresponsabilidade.
Por outro lado, a subida de 2,9% nos salários da
função pública vai causar problemas às empresas, em
particular às de menor dimensão. Ajuda a sério às
PME seria o Estado pagar-lhes atempadamente as
enormes dívidas que tem em atraso.
Ainda não há plena consciência, em Portugal, de que
somos um país de devedores. Estado, famílias,
empresas e bancos estão endividados até ao pescoço.
Como a nossa poupança privada é mínima e a pública é
negativa, temos de ir buscar dinheiro ao
estrangeiro. Algo que terá de ser pago, de uma
maneira ou de outra. Eis uma bela herança que
deixamos às próximas gerações.
E não existem apenas as dívidas explícitas. O
PÚBLICO de terça-feira passada referia a denúncia do
anterior presidente da ERSE, Jorge Vasconcelos,
quanto ao volume crescente e alarmante do chamado
défice tarifário - a diferença entre os preços
políticos fixados pelo Governo para a electricidade
e os seus custos reais. Em 2009 o preço da
electricidade vai subir, mas nem assim aquele défice
deixará de aumentar. O futuro que pague a crise.
2009 é ano de eleições. Jornalista