Foi numa dessas últimas sextas-feiras em que o mundo
parecia estar a ir ao fundo ao ritmo das quedas
abruptas das bolsas que vi a mais extraordinária
primeira página publicada em Portugal desde o início
da crise financeira. O jornal era A Bola, a notícia
a vitória do Benfica sobre o Nápoles e a manchete,
extraordinária no contexto do marasmo bolsista,
rezava: "A vida é bela."
Voltei a lembrar-me deste arremesso de euforia
futebolística a propósito da insólita entrega a
conta-gotas do Orçamento do Estado na Assembleia da
República, que chegou primeiro através de uma pen
sobre a qual não se sabe sequer se tinha conteúdo.
Os números que os deputados ficaram sem saber, o
ministro das Finanças, Teixeira dos Santos, também
parecia não os ter "consolidados na memória",
segundo afirmou. Tal ministro, tal pen, portanto. Só
que essa entrega às fatias permitiu ao titular da
pasta das Finanças fazer o elogio do seu orçamento,
sem outro contraditório além do lamento do deputado
comunista Honório Novo, perplexo perante a ausência,
no seu computador, dos dados que lhe teriam
permitido analisar a proposta governamental.
O país onde uma vitória europeia do Benfica chega
para esquecer um tsunami financeiro e aquele onde um
governo vai ao Parlamento fazer de conta que
entregou um orçamento são um e um só. Não surpreende
portanto que este Orçamento tenha sido feito para o
Governo nos poder dizer - sem contraditório da
oposição - que a vida, na medida do possível, é
bela. Não podemos ter o Ronaldo na Liga, mas o Reyes
até que dá uns toques.
E o Orçamento veio ainda mostrar é que a vida também
é bela para o Governo, desde que a crise
internacional se instalou. Que não, dirão alguns.
Então se há uma crise, o Governo não tem condições
económicas para fazer o orçamento eleitoralista de
que precisava, explicarão. Só que o Orçamento é
inequivocamente eleitoralista. Por isso a função
pública foi aumentada acima da inflação pela
primeira vez desde 1999. Além de simpática, a medida
visará comprar manifestações de ruas menos
participadas nos próximos tempos. Na prática, não
chega para sossegar os funcionários públicos, há
anos a perder poder de compra, e entala o sector
privado. Mas isso são outras conversas.
Sem crise, o Orçamento seria por certo muito mais
generoso. Mas a derrocada dos mercados financeiros
tem duas vantagens. Primeiro, o pouco que se dá
neste Orçamento rende muito politicamente. Mesmo em
tempo de vacas magras, os rapazes lá dão qualquer
coisinha. Mas, segunda e mais relevante questão, a
crise esconde o fracasso da política económica do
Governo. O desemprego e o fraco crescimento
económico passam a poder ser imputados à crise e não
se fala mais nisso. Como a oposição não diz grande
coisa, a crise passa a ser uma aliada potencial do
Governo.
Na conferência de imprensa de ontem, que interrompeu
para ir apanhar o avião, Teixeira dos Santos falou
sobre o objectivo de criar 150 mil empregos numa
legislatura, prometido pelo PS, de forma relevante:
disse que é a economia que cria empregos e que, com
a economia a descer, o mais provável é não se chegar
lá. Como também não serão atingidas as metas de
saída de funcionários da função pública, disse
também o ministro. Adeus metas, chegou a crise.
Para mais, a maioria dos analistas vai dizendo que
os objectivos relativos ao défice, ao crescimento
económico e ao desemprego inscritos no Orçamento
serão muito difíceis de atingir. Sobretudo quando
vemos na imprensa internacional como a economia real
vai pagar a factura do tsunami financeiro.
Percebe-se que o Governo quis passar uma mensagem de
confiança. Mas os eleitores sabem que a vida não
está de todo bela - e não é uma pen que vai mudar
isso. Jornalista