Como é possível a generalização da loucura? Santana Castilho
Em 2007 reformaram-se cerca de 3300 professores.
Este ano já vamos em mais de 5000 e o ritmo parece
estar a acelerar
Ao memorando de entendimento entre a plataforma
sindical e o Ministério da Educação, assinado a 17
de Abril de 2008, sucedeu uma atmosfera beligerante
latente e um clima de apaziguamento pelo terror.
Entrou-se numa espécie de guerra fria, que tem
garantido a paz entre ministério e sindicatos pelo
preço da escravidão endémica dos professores. Ora
equilíbrios conseguidos sobre desequilíbrios, ou
entendimentos momentâneos sobre desentendimentos de
toda a vida são coisas de engenharia social doentia,
que só podem produzir desastre. A face visível desse
desastre é o actual êxodo dos professores mais
experientes. A invisível, ainda mais grave e
comprometedora do futuro do país, é a imbecilização
crescente dos alunos, sujeitos a lógicas de sucesso
sem conhecimento e anestesiados por Magalhães a
pataco.
Em 2007 reformaram-se cerca de 3300 professores.
Este ano já vamos em mais de 5000 e o ritmo parece
estar a acelerar. É só ver as longas listas do
Diário da República. Os testemunhos, chapados na
imprensa, de docentes que aceitam penalizações
gravosas de 30 e 40 por cento sobre pensões de
reforma para toda vida, ao mesmo tempo que reiteram
o amor a uma profissão que, garantem, abraçaram por
vocação e só abandonam por coacção, transformam um
processo de reforma num processo de excomunhão. Um
país maduro estaria hoje a reflectir aturadamente
sobre o que Fernando Savater escreveu: "A primeira
credencial requerida para se poder ensinar, formal
ou informalmente e em qualquer tipo de sociedade, é
ter-se vivido: a veterania é sempre uma graduação."
A vida dos professores nas escolas tem-se vindo a
transformar num inferno. A missão dos professores,
que é promover o saber e o bem colectivo, está hoje
drasticamente prejudicada por uma burocracia louca e
improdutiva, que os afoga em papéis e reuniões e os
deixa sem tempo para ensinar. A carga e a natureza
do trabalho a que se obrigam os professores são uma
violentação e um retrocesso a tempos e a processos
que a simples sensatez reprova liminarmente. Ocorre,
então, a pergunta: como é possível a generalização
da loucura?
A resposta radica no uso do modelo publicitário
(cortejo ridículo de 23 governantes para entregar o
Magalhães e 35 páginas de publicidade paga e
redigida sob forma de artigos são exemplos bem
recentes) e das técnicas populistas. O Governo tem
conduzido a sua campanha de subjugação dos
professores repetindo até à exaustão os mesmos
paradigmas falsos e os mesmos slogans facilmente
memorizáveis pelos justiceiros dos "privilégios" dos
docentes. As ideias (a escola a tempo inteiro, por
exemplo) são tão elementares como as que promovem os
produtos de uso generalizado (o Tide lava mais
branco). Mas tal como os consumidores se tornam
fiéis ao produto cujo slogan melhor memorizam,
embora sabendo que a concorrência faz exactamente o
mesmo, assim se têm cativado apoiantes com a solução
de problemas imediatos, que nada têm a ver com o
ensino. E a dissolução sociológica dos professores
pela via populista tem procurado ainda, com êxito,
identificar e premiar uma nova vaga de servidores
menores - tiranetes deslumbrados ou adesivos - que
responderam ao apelo e massacram agora os colegas,
inflados com os pequenos poderes que o novo modelo
de gestão das escolas lhes proporciona.
A experiência mostrou-me que o problema do ensino é
demasiado sério e vital para o abandonarmos ao livre
arbítrio dos políticos. "Bolonha", a que este
Governo aderiu, ou a flexibilização das formações,
que este Governo promoveu através do escândalo das
"novas oportunidades", não se afastam, nos
objectivos, dos tempos da submissão ao evangelho
marxista, ou seja, os interesses das crianças e dos
jovens cedem ante a ideologia dominante e o resto só
conta na medida em que seja eleitoralmente
gratificante. Assim, contra a instauração de um
regime de burocracia e terror, para salvaguardar a
sanidade mental e intelectual dos professores,
encaro o protesto e a resistência como um exercício
a que ninguém tem actualmente o direito de se
furtar. Professor do ensino superior