Portugal chegou a ser um pequeno oásis, imune às
trapalhadas da banca e às oscilações do mercado
Não sei que "problemas técnicos" levaram o ministro
das Finanças a entregar, na Assembleia da República,
três horas e meia depois do previsto, um esquálido
Orçamento do Estado, enfiado numa pen, onde não se
encontravam os elementos que permitiriam a análise
do documento. Por volta das 21h, enquanto o ministro
dissertava, em directo, para as televisões, sobre as
contas que não tinha apresentado, os serviços da
Assembleia informavam melancolicamente que o
Orçamento tinha chegado "incompleto" e que ainda
estavam à espera do "documento" que permitiria aos
deputados avaliar as previsões do Governo. Na mesma
altura, mais a norte, o primeiro-ministro,
recusando-se a ser incomodado com percalços desta
natureza, justificava o seu silêncio com uma razão
de peso, exigindo aos jornalistas que respeitassem
alguns compromissos fundamentais: "Deixem-me jantar.
Tenho umas pessoas que me convidaram." Uma exigência
compreensível, principalmente se se levar em linha
de conta que o estômago e o convívio têm precedência
sobre as contas do Estado.
Como seria de esperar, os partidos da oposição
reagiram mal a esta pequena peripécia informática
que os impediu de comentar, em tempo útil, os
números que vão orientar a economia nacional durante
o próximo ano. Aparentemente, achavam-se no direito
não só de conhecer o documento integral no dia em
que este devia ter sido apresentado, como - o que
piora substancialmente o caso - de contrariar o
optimismo do Governo com discursos derrotistas e
dúvidas insustentáveis. Se o dr. Passos Coelho -
que, ainda esta semana, defendia patrioticamente que
o seu partido se devia abster de criticar o
primeiro-ministro - estivesse à frente do PSD, tudo
poderia ser diferente. Assim, com a oposição
entregue a um grupo de derrotistas e de
irresponsáveis, é natural que o Governo não lhe
forneça alguns dados essenciais que seriam
naturalmente utilizados contra os interesses dos
portugueses, diluindo o agradável consenso que,
neste momento, grassa um pouco por todo o país.
Ao contrário do que algumas (duas? três?) vozes têm
dito, a apresentação do Orçamento, que não foi
apresentado, confirma apenas a forma corajosa e
determinada como o Governo tem enfrentado uma crise
financeira que se abateu sobre nós, nas últimas três
semanas, graças à "ganância" dos especuladores e aos
excessos do "capitalismo de casino" com que os
Estados Unidos andam a brincar há uma boa dezena de
anos. Num primeiro momento, conhecendo os bons
resultados da sua política reformista, o
primeiro-ministro ainda chegou a pensar que podia
iludir a situação internacional. À medida que os
mercados iam entrando em colapso, o Governo
(acompanhado pelo sempre solícito governador do
Banco de Portugal) respirava optimismo e confiança:
no meio da catástrofe internacional, Portugal chegou
a ser um pequeno e tranquilo oásis, imune às
trapalhadas da banca e às oscilações do mercado.
Esta doce ilusão, no entanto, acabou por sucumbir
perante a dura realidade dos factos. E, de um dia
para o outro, o Governo descobriu que a crise
externa tinha, de facto, atravessado as fronteiras.
Sem tempo (nem feitio) para lamentar este pequeno
erro de análise, o eng. Sócrates deixou cair as
piedosas garantias que lhe iluminavam o discurso,
renascendo como uma espécie de timoneiro da crise,
capaz de acudir aos pobres e aos necessitados e
decidido a enfrentar as dificuldades que nos
espreitam e a recauchutar a economia com as chamadas
medidas anticíclicas. Enquanto o dr. Pinho, com o
mesmo à-vontade com que tinha anunciado um futuro
radioso, decretava solenemente o fim de uma era de
prosperidade, o eng. Sócrates proclamava a morte de
uma ideologia, insurgindo-se contra os delírios do
liberalismo e os perigos da falta de regulação.
A par desta súbita conversão aos valores do
socialismo, o primeiro-ministro anunciou
gloriosamente uma longa série de iniciativas: o
exercício, que ganhou lastro, esta semana, com a
apresentação parcial do Orçamento, nasceu há cerca
de quinze dias, com o anúncio, na Assembleia da
República, de três grandes medidas. De então para
cá, a crise internacional transformou-se numa
espécie de totoloto governamental: se, por um lado,
permite disfarçar os problemas internos que nunca
foram resolvidos, por outro, oferece condições
únicas para abrir os cordões à bolsa e satisfazer,
num ano eleitoral, os interesses dos mais variados
sectores da população. Dos inquilinos aos senhorios,
passando pelos funcionários públicos, pelos
banqueiros ou pelos camionistas, são poucos os
"privilegiados" do passado que não são agora
recompensados pelos "privilégios" que injustamente
lhe foram retirados.
Em suma, a crise internacional acabou por ser o
balão de oxigénio de que o Governo necessitava para
fazer frente às próximas eleições legislativas. A
crise dispensa uma remodelação, a crise esvazia os
hipotéticos conflitos com o Presidente da República,
a crise oferece uma vida nova para além do défice, a
crise restabelece a autoridade do primeiro-ministro
e a crise dispensa as críticas irresponsáveis
lançadas pela oposição. Não foi por acaso que, na
terça-feira, o Governo ficou a falar sozinho
enquanto a oposição se arrastava pelo Parlamento,
dependente de uma pen que "até o Magalhães abria" e
de um documento "incompleto" que impedia qualquer
análise sobre o Orçamento. Isso só foi possível
porque este Governo, determinado e corajoso, tem uma
estratégia para o país que não se compadece com
derrotismos perniciosos. Jornalista