Conta-se que quando os turcos cercavam
Constantinopla, uma das grandes questões que
agitavam os notáveis da cidade era a do sexo dos
anjos. Enquanto os debates decorriam de forma
apaixonada, as defesas descuravam-se. Até que os
turcos acabaram por conquistar Constantinopla, hoje
Istambul, em 1453. A verdade é que havia muito mais
pessoas que se sentiam competentes para discutir o
sexo dos anjos do que para pensar na defesa da
cidade.
Como a cidade também era conhecida pelo nome de
Bizâncio, passaram a chamar-se questões bizantinas
aquelas que são ao mesmo tempo rebuscadas,
artificiais e desprovidas de interesse prático. A
discussão do casamento dos homossexuais é a nova
versão das discussões bizantinas do século XVI.
Enquanto o país está na iminência duma crise
financeira que terá que ser encarada com a maior
atenção, enquanto há ainda a possibilidade de tomar
medidas preventivas que evitem consequências mais
sérias para os portugueses, medidas essas que exigem
a união entre todas as forças políticas e
económicas, o Parlamento vai entreter-se com a
discussão do casamento dos homossexuais.
Sempre se constatou que cada um procura falar
daquilo que percebe ou julga perceber. Desta vez não
é do sexo dos anjos, porque disso os deputados não
percebem muito, nem de medidas económicas urgentes,
o que será semelhante, mas do casamento de
homossexuais, assunto em que alguns são bastante
competentes.