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Público - 16 Out 03
"Com Calma, Calma, Rápido, Saiam Todos"
Por POR BÁRBARA WONG (TEXTO) E RUI GAUDÊNCIO (FOTO)
O som do alarme toca e os corredores da Escola Secundária de Vendas Novas,
Alentejo, enchem-se de alunos. O primeiro a sair da sala enverga um colete
amarelo fluorescente, o professor é o último da fila e deixa a porta
fechada atrás de si, depois de verificar que ninguém ficou para trás. Ao
fundo das escadas o director do estabelecimento de ensino, Carlos Rebelo,
também de colete amarelo, repete ao megafone: "Com calma, calma, rápido,
saiam todos."
Duas vezes por ano, e até ao final do 2º período, as escolas portuguesas
devem fazer exercícios de evacuação, em conjunto com as autoridades
locais. É o que faz a escola de Vendas Novas.
"Temos que instituir rotinas e práticas de segurança", alerta o secretário
de Estado da Administração Educativa, Abílio Morgado, ontem, em visita à
escola, onde inaugurou o pavilhão desportivo, Mas Abílio Morgado
aproveitou também a ocasião para divulgar um "'kit' de segurança das
escolas", feito em colaboração com o Ministério da Administração Interna,
que chegou ontem a todos os estabelecimentos de ensino.
Trata-se de um manual com informação sobre utilização, manutenção, higiene
e segurança dos edifícios escolares. O livro vem acompanhado por um
caderno de registo de segurança, onde as escolas deverão inscrever os
exercícios que fazem, falsos alarmes, anomalias e incidentes, assim como
as acções de formação que os membros da escola realizam no âmbito da
segurança.
"O ministério está a proporcionar instrumentos de trabalho às escolas.
Cultura da segurança deve ser a palavra-chave", sublinha Abílio Morgado.
Na secundária de Vendas Novas, por detrás de cada porta, de cada sala, há
um colete fluorescente e, à vista de todos, uma planta fotocopiada do
piso, com as indicações de saída. Os alunos estão habituados a fazer o
exercício, uma vez por período, avança o director da escola. "Eu sou o
responsável pela evacuação dos alunos", informa Carlos Rebelo, mostrando o
colete amarelo bem dobrado por debaixo do megafone, no seu gabinete,
acrescentando que todos os anos tentam "bater o recorde" e fazer a
evacuação no menor lapso de tempo possível.
Quando a campainha da biblioteca é accionada pelo secretário de Estado, as
alunas que estavam a consultar livros e a Internet levantam-se e em menos
de um minuto concentram-se no pátio, onde começam a chegar colegas
provenientes dos outros edifícios. A escola tem cerca de 300 estudantes de
10º, 11º e 12º, com uma idade média de 17 anos.
Há um fumo vermelho que invade o pátio, enquanto os alunos se vão
agrupando em filas, cada uma correspondendo a uma turma. "Verifiquem se
todos os colegas estão presentes", grita Carlos Rebelo pelo megafone. Os
delegados de turma contam os colegas e põem o braço no ar, como quem diz
que não falta ninguém.
Professores e funcionários também marcam presença. Na esquina de um dos
edifícios estão duas alunas só com uma toalha enrolada - estavam a tomar
duche, depois da aula de Educação Física, quando ouviram a campainha de
incêndio, conta uma professora.
Entretanto, um carro da GNR, um tanque dos bombeiros e uma ambulância
irrompem pelo pátio. Os oficiais saltam dos carros. Não há feridos a
lamentar e o fumo começa a desaparecer.
O director está orgulhoso: "Menos de dois minutos. Estão todos de
parabéns." Toda a gente bate palmas. "Podem destroçar, 'tchau', 'tchau'",
despede-se. Os miúdos voltam às salas de aula. "Vamos por aqui, que é mais
longe", segredam três ou quatro alunas, fugindo por trás de um dos
pavilhões. O exercício acabou. |