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Público - 12 Out 03
Os Privilégios e a Universidade
Por ANTÓNIO BARRETO
O episódio do acesso da filha do ministro à universidade cresceu,
emocionou muita gente e, com a demissão dos ministros, morreu. O desfecho,
consumado esta semana, pôs um termo ao debate. Assunto encerrado, pois.
Infelizmente. Na verdade, a questão do acesso à universidade foi,
injustamente, deixada de lado e, suspeito, ninguém mais vai querer ouvir
falar do assunto, a não ser, evidentemente, que novas peripécias ponham um
político em causa. Ora, a verdade é que o problema, na sua dimensão geral,
é muito mais sério.
Mais uma vez se verificou que o acesso à universidade deveria estar a
cuidado das universidades e não da burocracia ministerial que, sob a
aparência da neutralidade democrática, é um alfobre de privilégios e
fraude. Com certeza que não imagino que todas as universidades e
faculdades estejam isentas de tentações. Mas, creio, os mecanismos de
selecção pelas universidades estariam mais abertamente sujeitos a controlo
social e académico. Além de que talvez o mérito, nessas condições, se
transformasse no único critério de admissão.
Pior é o problema dos regimes e dos concursos especiais. Foi, aliás, por
causa desses, que dois ministros, um secretário de Estado e um director
geral deram o triste espectáculo a que assistimos. Os regimes especiais
são muitos. Destinam-se a criar condições de privilégio para certos grupos
sociais, profissionais, étnicos, geográficos, de estatuto e de condição.
Com estes regimes, qualquer pessoa, em determinadas condições, pode aceder
à universidade fora do "numerus clausus", sem mérito nem merecimento, com
más notas e sem que os critérios de avaliação académica sejam utilizados.
Eis uma desigualdade absoluta e legal a que os juristas estão desatentos.
Não consegui, junto do ministério, obter números. Mas alguns milhares de
estudantes entram assim. São outros tantos bons alunos (ou melhores
alunos) que ficam impedidos de entrar.
Quem são os felizardos? A legislação existente é uma autêntica floresta
tropical. São vários os decretos, as portarias e os regulamentos. Os
dispositivos são complexos, os condicionamentos múltiplos, tudo, como
sempre em Portugal, na ambição de prever todas as situações imagináveis.
Isto, apesar de se saber, de experiência, que quantos mais são esses
mecanismos, mais fácil se torna encontrar as vias que permitem, a quem tem
meios, contornar o sistema. Os destinatários desses privilégios são: os
diplomatas portugueses colocados no estrangeiro, os diplomatas
estrangeiros colocados em Portugal, os bolseiros no estrangeiro, os
funcionários públicos em missão
no estrangeiro, os oficiais das Forças Armadas em formação, os bolseiros
dos Palop, os atletas de alta competição, os timorenses, os "oriundos"
(naturais e residentes) dos Açores e da Madeira, os funcionários públicos
(qualquer que seja a sua naturalidade) em serviço nos Açores e na Madeira,
os emigrantes, os soldados e os deficientes. Os beneficiários são os
próprios, seus cônjuges e familiares até ao segundo grau.
A enormidade da legislação e dos regulamentos, incluindo sábias fórmulas
matemáticas, parece destinada a evitar a fraude. Mas a verdade é que todos
os anos são numerosos os candidatos que, por mil vias, conseguem
beneficiar destes privilégios tão generosamente concedidos pelos
legisladores. Endereços falsos, residências improvisadas do tipo "barriga
de aluguer", alterações profissionais de última hora, diplomas estranhos,
tudo serve para colocar os rebentos de más notas na universidade. Como se
pode imaginar, neste nosso querido Portugal, tão injusto e desigual, mas
sempre tão pronto a ter pena dos coitados, pretende-se com estes regimes
especiais repor igualdade, isto é, ajudar quem vive em dificuldades, quem
não deve ser prejudicado pelo cumprimento de deveres profissionais ou quem
sofre de condição desigual, como, por exemplo... residir na Madeira ou nos
Açores ou ser filho de diplomata ou emigrante! Noutros casos, todavia,
trata-se de política externa: assim se compreenderá a abertura, sem
critérios académicos, aos naturais dos países africanos de expressão
portuguesa.
Breve esforço de análise produz rapidamente evidências: muitos dos
beneficiários (talvez a maioria) destes regimes são já cultural, social e
economicamente privilegiados. Isto é, pertencem a famílias de altos
rendimentos e razoável cultura ou de rendimentos muito superiores às
médias portuguesas: diplomatas, emigrantes, oficiais, políticos, altos
funcionários, dirigentes dos Palop... Muitos deles beneiciam já de
privilégios fiscais e de crédito, a que se acrescentam, por exemplo, os
subsídios de transporte e outros que, por vários motivos, muitos auferem.
Em poucas palavras, a maior parte dos que beneficiam destes privilégios
são já francamente privilegiados.
Não vale a pena disfarçar: estes mecanismos convidam à fraude e são
facilmente aproveitados por quem tem meios e influências.
Além disso, estes dispositivos ferem de injustiça deliberada muitos dos
que, honestamente, trabalham e estudam e que, mau grado poderem alguns
exibir excelentes notas, são brutalmente afastados da universidade por
quem tem menos mérito e mais privilégios.
Todo este sistema põe em causa o essencial do acesso à universidade: o
mérito e o trabalho em condições de igualdade de oportunidades.
Finalmente, é enorme o desperdício que estas disposições provocam. Na
verdade, muitos dos candidatos admitidos por favor nunca terminam os seus
cursos. Depois de se arrastarem penosamente nos corredores, vão-se embora,
sem diploma e sem ilusões, por falta de aproveitamento. Estas quotas de
privilégio são um viveiro de ilusões e um cemitério de falhados. No caso
dos provenientes dos Palop, por exemplo, é frequente verificar que os
estudantes, sem ano propedêutico nem preparação, abandonam em poucos
semestres e vão trabalhar para as obras.
Os regimes especiais de acesso constituem um dos mais insidiosos venenos
da universidade e da sociedade. A pretexto da igualdade, provocam
injustiça e administram privilégios injustificados. Funcionam como
recompensa à fraude. Contrariam as principais exigências da vida
universitária: saber, rigor, trabalho, disciplina e mérito. São a tradução
exacta de alguns dos piores defeitos dos portugueses: a preguiça, a
complacência e o privilégio. Falta acrescentar: todos os partidos
parlamentares e todos os governos concordam com estes privilégios. Pois
claro! |