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Público - 18 Out 03
"Os Truques do Acesso"
No seu editorial de domingo, 5 de Outubro, com o título "Os truques do
acesso", José Manuel Fernandes defende que seja devolvida às escolas de
ensino superior a capacidade de escolherem os seus alunos, como a única
forma de acabar com as injustiças relativas do actual sistema de acesso. O
mesmo é defendido por António Barreto no seu "Retrato da Semana" da edição
de 12 de Outubro, em que faz uma justa crítica aos regimes especiais de
acesso. Concordo, sem dúvida, mas acho que é importante explicar, em
especial aos alunos que terão que passar por um processo de acesso mais
complicado e realizar um maior número de provas, que se houver coragem
política para tomar essa medida, mais do que acabar com as muitas
perversões e "batotas" do sistema de acesso, o grande ganho será uma maior
responsabilização das escolas pelo ensino e avaliação dos seus alunos.
Há quase 20 anos, logo após o meu regresso do período de doutoramento em
Inglaterra, fui pela primeira vez regente de uma disciplina do primeiro
ano. Um certo dia, depois do lançamento das notas finais, eu e os outros
docentes da disciplina exultávamos com os resultados obtidos. O professor
inglês que tinha sido meu supervisor e se encontrava de visita perguntou,
ao entrar no gabinete, qual o motivo para tanto contentamento.
Expliquei-lhe, orgulhoso, que tínhamos tido 50% de aprovações, muito acima
do que era esperado! E do que era habitual... A reacção dele foi imediata,
entre o incrédulo e o indignado: "50% failures? But that's disgraceful!"
Para ele, tal percentagem de reprovações era de facto uma coisa impensável
porque, na sua cultura inglesa, e como então argumentou, se uma escola
aceita um determinado aluno é porque deve estar convencida que o pode
ensinar e ao aceitá-lo está também, pelo menos implicitamente, a assumir
um compromisso nesse sentido.
Entre nós, ainda hoje, em muitos cursos das nossas escolas de ensino
superior, uma percentagem de aprovações de 50% dos inscritos e 75% dos
avaliados é considerada uma meta de "sucesso", difícil, a atingir! Aqui
está mais uma medida do nosso atraso! Quando forem as escolas a escolher e
aceitar os seus alunos, sobretudo nos cursos em que a elevada procura
permita uma verdadeira selecção, deixará de ser possível usar a gasta
desculpa da má preparação dos alunos que entram para justificar taxas de
reprovações que em muitos casos são escandalosas.
Quanto aos regimes especiais de acesso, embora concordando com António
Barreto quando diz que muitos deles são uma acumulação injustificável de
privilégios, é importante não cair em posições radicais abolicionistas
porque alguns serão justos e necessários. Por exemplo, de novo com
inspiração na realidade inglesa e sobre outro aspecto em que o nosso
atraso é enorme, as universidades e outras escolas de ensino superior
deveriam, a curto prazo e progressivamente, dedicar uma maior atenção e
esforço à atracção e ensino de "estudantes tardios": aqueles que não tendo
tido possibilidade de prosseguir estudos superiores logo após a conclusão
do secundário desejam fazê-lo alguns anos mais tarde. Atendendo ao baixo
número de licenciados que o país tem, essa é uma missão em que não se deve
poupar esforços e é natural, e justo, que as escolas estabeleçam para
esses estudantes tardios regimes especiais de acesso.
Eduardo Francisco Rêgo
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