Público - 28 Out 03

Ensino Superior Público Fica com Quase Seis Mil Vagas por Preencher
Por ISABEL LEIRIA BÁRBARA WONG

Mais 8074 novos estudantes vão juntar-se aos que já tinham conseguido colocação neste ano lectivo no ensino superior público. Os resultados da 2ª fase do concurso nacional de acesso são conhecidos hoje, mas já se sabe que foram muitas as vagas que ficaram por preencher: 5861 num total de 13.873.

Cerca de mil cursos ainda tinham lugares disponíveis, mas dez por cento destas formações ficaram com mais de 20 vagas por preencher. Algumas (25) nem sequer conseguiram conquistar mais nenhum estudante. Foi o caso do curso de Línguas e Literaturas Modernas, variante Inglês e Alemão, da Universidade de Coimbra, que não preencheu nenhum dos 40 lugares. Ou dos cursos de Ciências Geofísicas e Engenharia Física da Faculdade de Ciências de Lisboa, com 34 e 30 vagas, respectivamente.

Se, nalgumas situações, pode estar-se perante uma reformulação das opções dos próprios alunos, em função das oportunidades de emprego, noutras as instituições não terão conseguido fugir aos efeitos da diminuição do número
de inscritos no ensino secundário.

E é esta redução demográfica - em relação a 2002, o número de candidatos à 2ª fase caiu seis por cento - que explica que o corte de também seis por cento das vagas, ainda decidido pelo ex-ministro da Ciência e do Ensino Superior Pedro Lynce, não tenha tido um impacto tão grande.

De acordo com o Ministério da Ciência e do Ensino Superior (MCES), entre este concurso e o do ano passado verificou-se uma redução de dois por cento no número de colocados. Ao todo, 40.236 conseguiram, ao longo destas duas fases, um lugar numa universidade ou politécnico públicos. Em 2002/2003 foram 41.064.

Perante este cenário, deverão ser as instituições privadas a sentir mais a quebra de alunos. É que, nesta 2ª fase, apenas 3552 candidatos não conseguiram ingressar no ensino superior público. Para estes cálculos, o MCES não entrou em linha de conta com outros tantos estudantes que, apesar de terem tentado a sua sorte novamente e não terem tido êxito, já tinham obtido um lugar na 1ª fase. A tutela lembra ainda que "um número que não é possível fornecer" dos 3552 não colocados já tinha sido colocado em 2002.

Procura diminui 16 por cento na área da Educação

Por áreas de formação, a 2ª fase do concurso vem confirmar a tendência já verificada na primeira parte. Em relação a 2002, os cursos de formação de professores receberam menos 16 por cento de caloiros. Os de Humanidades registaram uma perda de nove por cento. As Artes e a Saúde, consideradas pelo Governo como domínios prioritários de formação, constituem as excepções neste cenário de diminuição da procura.

Mas há também exemplos de áreas que, embora definidas como de importância estratégica, não só continuam a receber um número de alunos inferior ao desejável como assistiram a uma diminuição de colocados. É o caso das Ciências e das Tecnologias, que perdem cerca de três por cento de novos estudantes em relação a 2002.

Por instituição de ensino, verifica-se que a redução da procura foi mais sentida nos institutos politécnicos, como o de Viseu (menos 18,1 por cento de colocados finais), Bragança (menos 14,4 por cento) ou Lisboa (menos 13,2 por cento). No caso das universidades, apenas na dos Açores se assistiu a uma diminuição de igual nível.

E é também nos politécnicos que entraram mais alunos com nota de candidatura  inferior a 10 valores. O último aluno colocado com a classificação mais baixa entrou em Engenharia Mecânica no Instituto Politécnico da Guarda, com 8,1 valores. Mas há mais 103 cursos que aceitaram notas entre esta nota e os 9,9 valores.

Em nota divulgada ontem, o MCES anuncia que vai proceder a uma "cuidadosa avaliação dos resultados do concurso nacional", com o objectivo de definir as "medidas a tomar para os próximos anos lectivos", sendo que, até Janeiro de 2004, as instituições de ensino deverão apresentar as suas propostas de reestruturação dos cursos com pouca procura. As áreas das Ciências e das Tecnologias irão merecer uma atenção especial por parte do ministério.

Os resultados da 2ª fase podem se consultados em www.acessoensinosuperior.pt e os alunos colocados devem matricular-se e inscrever-se no respectivo estabelecimento de ensino a partir de hoje. O prazo termina a 3 de Novembro. As vagas sobrantes poderão ainda vir a ser postas a concurso, numa 3ª fase, se tal for decidido pelas escolas.

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