|
Diário de Notícias - 13 Out 03
A chave da produtividade
João César das Neves
A discussão sobre a produtividade, que o Governo lançou em boa hora, é
capaz de trazer algumas surpresas. A iniciativa é muito de louvar,
tratando de uma dimensão essencial do futuro, sempre oculta por outros
problemas. Mas dois dos factores mais importantes para a nossa
produtividade estão entre os mais criticados pela classe política, a
informalidade e a imigração.
O grande trunfo do nosso desenvolvimento é e sempre foi a espantosa
aptidão para a flexibilidade. A economia portuguesa tem conseguido vencer
múltiplos desafios _ do império, da EFTA, CEE, mercado único, euro, etc. _
graças à sua notável capacidade de adaptação, improvisação e
informalidade. Os portugueses, que fizeram negócios nas quatro partes do
mundo, ajustam-se e desembaraçam-se sempre de forma notável. Uma das
manifestações mais poderosas deste dom é a migração. Ao longo dos séculos
os nossos compatriotas souberam procurar noutras zonas as melhores
oportunidades de progresso. E hoje, quando o pequeno Portugal já é
desenvolvido e os portugueses aspiram a empregos de qualidade, são os
imigrantes que vêm colmatar as falhas que essa evolução criou. As mesmas
que nós aproveitámos noutros locais noutros tempos.
Cada povo tem o seu carácter. O nosso, como todos, traz vantagens
evidentes e defeitos importantes. A improvisão tem limites e a migração é
difícil. Há perigosas tendências para a desorganização e ilegalidade e
graves perigos de conflitos sociais. Temos pois de aprender a viver com as
nossas características, aproveitando os ganhos e corrigindo os
inconvenientes. A nossa elite nunca entendeu isto. Os piores obstáculos à
produtividade vêm dos excessos de regulamentação, burocracia e
fiscalidade, demasiado pesados e injustos para uma economia ágil. Ansiosos
por ordenar, manipular, estandardizar, os nossos responsáveis nunca
acompanharam a dinâmica nacional. Contrariaram a iniciativa e a
criatividade, desprezaram ontem a emigração como hoje a imigração. A nossa
História nasce da luta permanente entre um povo arrojado e uma elite
paralisante. Esta luta secular continua bem viva hoje.
O recente relatório sobre produtividade de um reputado conjunto de
economistas (Ministério da Economia, Portugal 2010 _ Acelerar o
crescimento da produtividade) aponta isso mesmo. Até quando afirma que a
primeira barreira à produtividade é «a informalidade», o que o estudo quer
dizer é que os bloqueios do excesso e má qualidade da regulamentação e o
brutal peso da fiscalidade são a causa simultânea da baixa produtividade e
da fuga para a informalidade.
No que toca à imigração, a elite insiste em complicar a entrada de
trabalhadores estrangeiros com regras tontas, enquanto repete a falácia
populista de atribuir o desemprego aos imigrantes. Num país que conhece a
migração como ninguém, esta ligação, além de espúria e injustificada (como
demonstra o recente estudo da Comissão Europeia Migration and Social
Integration of Migrants, Janeiro 2003), é hipócrita. Devemos aos
imigrantes boa parte da nossa produtividade.
Temos uma economia especializada na flexibilidade, improvisação e
ajustamento, mas uma elite apaixonada pelo planeamento, estandardização e
regulamentação. Temos uma elite tacanha e paroquial e uma economia aberta
e interactiva. A chave da nossa produtividade está em potenciar as
vantagens, colmatar as insuficiências... e combater a elite. |