|
Público - 17 Out 03
O Construtor de Pontes
Por GUILHERME D'OLIVEIRA MARTINS, Presidente do Centro de Reflexão
Cristã
As comemorações dos vinte e cinco anos do pontificado de João Paulo II e a
celebração no próximo sábado no Estádio Nacional constituem motivo para
invocarmos a personalidade de Karol Wojtyla.
Adam Michnik recordava há alguns dias que a personalidade do Sumo
Pontífice apenas pode compreender-se a partir da sua formação espiritual
na época do nazismo e do comunismo, "numa época caracterizada pelo
heroísmo e pela moderação do Cardeal Wyszynski", o que lhe permitiu
reformular a estratégia da Igreja Católica perante as ditaduras do leste,
sem poupar os diversos regimes autoritários.
Nos anos difíceis, João Paulo II lembrou, com actos concretos e com sinais
de coragem e determinação, que a "via da Igreja é o ser humano". E assim,
como recorda ainda Michnik, deu ao seu povo "a graça para os fracos e o
reconforto para os perseguidos".
João Paulo II tem sido decisivo para o curso da história europeia e para a
aceleração de um processo que nos conduziu à abertura de fronteiras, ao
nascimento de novas democracias e à criação de condições para que a Europa
possa tornar-se um espaço aberto de paz e de segurança, de desenvolvimento
sustentável e de diversidade cultural.
Inspirado pelo Espírito, na linha das Bem-aventuranças, o Papa tem-se
singularizado como um verdadeiro "construtor de pontes", no mundo e com o
mundo, indo ao encontro das pessoas de boa vontade e procurando entender
os sinais dos tempos. Os Encontros ecuménicos de Assis são um símbolo
desse método e desse esforço, bem como o sentido peregrino do pontificado,
o ir ao encontro dos cidadãos e dos povos, em nome da perenidade da
mensagem cristã.
Unificador de contrários - determinação e ecumenismo, clareza e calor
humano, diplomacia e testemunho, abertura e ortodoxia -, João Paulo II é
uma figura complexa e paradoxal, que não nos pode deixar indiferentes.
Inspira confiança e põe a tónica na cultura da Paz e nos combates contra a
pobreza e a injustiça. Num tempo de indiferença e de relativismo, é
fundamental que as causas da paz e de uma governação do mundo sejam
defendidas com determinação, em nome dos valores permanentes. João Paulo
II é uma marca de dignidade humana e de tolerância fundamental. |