Público - 14 Out 03

Indisciplina e Pouca Avaliação Contribuem para Mau Desempenho a Matemática
Por BÁRBARA WONG

Indisciplina na escola, "abaixamento de critérios de exigência" e falta de avaliação "séria" a alunos, professores e escolas são alguns dos factores que contribuem para o mau desempenho dos estudantes portugueses a Matemática, acredita Nuno Crato, da Sociedade Portuguesa da Matemática.

Este organismo organizou, em conjunto com o Ministério da Educação, um encontro sobre o ensino da disciplina, que decorreu no fim-de-semana, em Caparide, Cascais. O ministro David Justino aproveitou o seminário para anunciar que a Comissão para o Estudo e Promoção da Matemática e Ciências vai apresentar o seu primeiro relatório no final do mês.

Esta estrutura foi criada, em Agosto de 2002, com o objectivo de diagnosticar o problema e definir um programa de emergência para a Matemática e as Ciências. Passado mais de um ano, a comissão, que entretanto se transformou em órgão consultivo do ministério, ainda não se pronunciou. Nuno Crato, membro da comissão, defende que muito do que se fez nos últimos anos contribuiu para os "graves problemas" com que se defronta o ensino.

Anthony O'Hear, do Royal Institute of Philosophy, de Londres, é da mesma opinião e critica a diminuição de critérios de exigência escolar. O britânico, que também é conselheiro no Governo de Tony Blair, explica que, nas últimas duas décadas, os currículos foram facilitados, os professores passaram a ser menos rigorosos e conhecimentos essenciais - como o da álgebra - desapareceram dos currículos britânicos. "Não são os estudantes que não têm capacidades - eles não são desafiados", declara ao PÚBLICO.

A solução, adianta, passa por criar currículos diferenciados, adaptados às capacidades de cada um. "Temos de voltar a ter um sistema onde existe um ensino mais técnico e outro mais académico", defende O'Hear.

Em Portugal, os problemas com a disciplina começam logo no início da escolaridade, lembrou David Justino, realçando que muita coisa terá de mudar para inverter o mau desempenho dos alunos.

Médias negativas

Uma das alterações será introduzida com a nova Lei de Bases da Educação, que aponta para uma organização do modelo educativo diferente. É ainda necessário reflectir sobre as matrizes curriculares e, "sobretudo, sobre os conteúdos", acrescenta.

Depois do encontro sobre a Matemática, a tutela quer reflectir sobre a leitura e a escrita, as ciências e a educação para o risco (que inclui questões como a sexualidade, a toxicodependência e a prevenção rodoviária). Com estes seminários, a tutela quer recolher informações, mas também reflectir sobre os diagnósticos que já estão feitos, explica o ministro da Educação, David Justino. "À medida que debatemos, vamos aplicando", reforça o governante.

De recordar que, por cá, este ano, os maus resultados nos exames nacionais de 12º ano voltaram a repetir-se. A média nacional à disciplina foi de 9,3 na primeira fase e de 7,4 valores na segunda. Esta aversão reflecte-se também nas escolhas que os alunos fazem no ensino superior. O número de candidatos que colocaram cursos de ciências como primeira opção caiu 13,5 por cento em relação ao ano passado. Esta é uma área considerada prioritária pelo Governo.

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