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Público - 11 Out 03
"Testenovela", Grelhas Televisivas e Regulamento do Big Brother Marcam
Presença em Manuais de Português
Por ISABEL LEIRIA
No manual "Comunicar" de Língua Portuguesa do 10º ano, da Porto Editora,
no capítulo dedicado a textos pragmáticos, é apresentado o regulamento do
concurso televisivo Big Brother. Ao lado estão fotografias de
ex-concorrentes, sós ou a dar autógrafos. Aos alunos é proposto que, "em
diálogo com os colegas da turma", refiram o que "já conhecem sobre este
concurso" e que, após a leitura do regulamento, emitam "um parecer sobre o
mesmo".
"Urge que os professores sejam formados nesta matéria de concursos
televisivos. Como orientar estes trabalhos, não tendo conhecimento da
matéria-prima?", ironiza Maria do Carmo Vieira, professora de Português na
Escola Secundária Marquês de Pombal, em Lisboa. A docente fez uma análise
dos vários manuais disponíveis para adopção no 10º ano à disciplina de
Português B (comum a todos os agrupamentos, com excepção de Humanidades, e
que seguem já as orientações do novo programa) e são muitas as críticas
que apresenta.
Ainda em relação a esta área do programa, a professora dá outro exemplo de
um tipo de exercício que, na sua opinião, nunca poderia constar de um
manual. No "Em Todos os Sentidos", da Porto Editora, sugere-se a leitura
do "Requerimento em 30 linhas" de Fernando Pessoa, segue-se o título à
letra e pede-se aos alunos que, "respondendo ao pedido de Fernando Pessoa
elaborem um atestado, uma declaração ou certificado comprovando os factos
indicados pelo poeta". É ainda pedido que identifiquem o nome, estado
civil, profissão ou número de contribuinte do requerente.
"Há estratégias de trabalho e de aprendizagem propostas que são absurdas",
defende esta professora com 23 anos de experiência. Por exemplo, Maria do
Carmo Vieira considera ainda ser uma "vergonha" que no manual "Discursos",
da Didáctica Editora, no dossier "Textos dos Média", sejam reproduzidas
grelhas televisivas e um passatempo da "TV Guia", a que se dá o nome de "Testenovela".
"Fãs que serão (ou se convidam a ser) das novelas", escreve a professora,
os estudantes poderão responder sobre o enredo da telenovela "O Olhar da
Serpente" e dizer o que "levou Tomé a expulsar Maria de casa"; ou ainda
assinalar quem é que, em "Marisol", "Rodrigo agride violentamente,
deixando-o cego": Rosana, Mário ou Leonardo.
Maria do Carmo Vieira reforça: "O que é lamentável na maioria dos manuais
é o facto de os seus autores parecerem apoiar a ideia - tão difundida
pelos autores do programa da nova disciplina - de que o correcto é
respeitar o discurso que os alunos trazem para a escola. Assim surgem os
Big Brother, as entrevistas com Herman José (manuais da Areal e
Constância), as programações divulgadas pela 'TV Guia'."
A questão que se coloca é esta: se os alunos vêem e falam de televisão,
deve ou não a escola incorporar o discurso e a partir dele chegar a outras
matérias? Se há necessidade de preparar todos os jovens com um conjunto
básico de competências, deve a disciplina de Língua Portuguesa ajudar a
descodificar todos os registos e não apenas os textos literários? O ensino
da língua e o ensino da literatura são de alguma forma dissociáveis? As
opiniões dividem-se, tal como se dividiram durante o período de discussão
do novo programa de Português do ensino secundário, o tal que tanta
polémica causou ao remeter o estudo de "Os Lusíadas" do 10º para o 12º
ano.
Mobilização de conhecimentos anteriores
Gabriela Lança e Conceição Jacinto, autoras do manual "Comunicar",
esclarecem as suas opções. Em primeiro lugar, é o próprio programa de
Língua Portuguesa que prevê a leitura de "regulamentos de concursos
televisivos", conteúdo que deve ser abordado no âmbito da "oralidade". O
objectivo é que os alunos revelem a sua compreensão do texto que vai ser
lido, lembram.
Quanto à escolha do regulamento do Big Brother, as autoras justificam que
o facto de sugerirem a audição de um texto sobre um concurso televisivo
que os alunos conhecem "possibilitará uma escuta activa por parte destes,
pois o conhecimento prévio do concurso em causa facilita a compreensão do
seu regulamento".
"O que é pedido ao aluno não é que discuta o concurso na aula, mas que
analise um modelo textual específico, tarefa que, na nossa opinião, seria
bastante dificultada se este tivesse que se pronunciar sobre o regulamento
de um concurso que, eventualmente, desconhecesse. O que se sugere (de
acordo com o novo programa da disciplina) é uma análise da componente
linguística do texto a partir da mobilização de conhecimentos anteriores
que, neste contexto, podem revelar-se úteis à análise em causa, garantindo
algum grau de eficácia ao objectivo de escuta", sustentam as duas autoras.
Para o presidente da Associação de Professores de Português (APP), Paulo
Feytor Pinto, salvaguardando que é difícil avaliar estes exemplos sem
fazer uma análise do contexto em que surgem, só o facto de, por exemplo, o
regulamento do Big Brother constar de um manual escolar não permite fazer
um juízo de valor.
"O regulamento está lá só para entreter ou não? Se, por exemplo, é
apresentado para se chegar a algo de maior - como o regulamento da nação,
a Constituição da República Portuguesa -, então se calhar não tenho
objecções." Feytor Pinto defende que a escola serve também para elevar o
nível cultural dos jovens, mas admite que se possa partir do que eles
sabem para se ensinar algo mais.
O receio de Maria do Carmo Vieira mantém-se. "Se não é a escola a
ultrapassar o discurso e as experiências que os jovens trazem de casa,
então é que estamos a ser elitistas, pois fazemos uma separação entre os
que têm poucas bases educativas e culturais e os que já têm tudo. A
cultura não pode ser transmitida só a alguns."
legenda: As opiniões em relação aos manuais de Português dividem-se, tal
como se dividiram durante a discussão do novo programa da disciplina
destaques:
Os estudantes poderão responder sobre o enredo da telenovela "O Olhar da
Serpente" e dizer o que "levou Tomé a expulsar Maria de casa"; ou ainda
assinalar quem é que, em "Marisol", "Rodrigo agride violentamente,
deixando-o cego": Rosana, Mário ou Leonardo
"Há estratégias de trabalho e de aprendizagem propostas que são absurdas"
Num dos manuais, o poema "Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades" vem
acompanhado de uma fotografia da "National Geographic", de 1994. Em muitos
outros casos, vários pintores do século XIX ilustram a poesia camoniana.
Mas "o mais confrangedor é a bonecada com que se ilustra todo o tipo de
textos" |