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Público - 3 Out 03
Liceu Francês Atribui Bonificações às Notas dos Alunos
Por BÁRBARA WONG
Este ano, muitos alunos que terminaram o secundário no Liceu Francês
Charles Lepierre, em Lisboa, não tiveram notas para ser admitidos no
ensino superior. Segundo os encarregados de educação, as habilitações
atribuídas pela própria escola não foram, pela primeira vez, reconhecidas
pelo Governo português. O mais grave, adiantam, é que a tutela só deu a
conhecer este facto no fim do ano lectivo.
A Comissão Nacional de Acesso ao Ensino Superior (CNAES) nega que a
informação não tenha sido dada atempadamente à escola e salienta que está
a cumprir a legislação.
"Praticamente nenhum jovem entrou na universidade porque foi violado um
acordo que existia quanto ao critério de avaliação. Durante anos a fio, as
notas da escola eram beneficiadas com uma bonificação de dois a três
valores, mas este ano, isso não aconteceu e os miúdos não entraram",
queixa-se um encarregado de educação, que tem dois filhos no Liceu
Francês, adiantando que 70 por cento dos estudantes que este ano estão
inscritos no 12º ano tencionam sair da escola. A CNAES estima que cerca de
duas dezenas de estudantes não foram colocados, em meia centena.
A escola contestou as novas medidas porque estas põem em causa os
"procedimentos que, desde há muito, vinham a ser adoptados, internamente e
com o acordo tácito, embora não explícito, do Ministério da Educação, para
a emissão de certificados de conclusão dos cursos do ensino secundário
estrangeiro ali leccionados e para o cálculo das classificações das
disciplinas a considerar como provas de ingresso no ensino superior
português", conta Meira Soares, presidente da CNAES, numa carta enviada ao
ministro da Ciência e do Ensino Superior.
Ao PÚBLICO, Meira Soares explica que o que aconteceu até agora é que a
tutela aceitava as classificações fornecidas pelo Charles Lepierre - que
tem "regras internas" para calcular as notas dos alunos -, em vez das
certificadas pela Academia de Toulouse, uma espécie de direcção regional
de educação do Ministério da Educação francês, que superintende a escola
em Portugal.
Só que, a partir deste ano, depois de aprovado o decreto-lei 26/2003, a
CNAES tem poderes para validar, ou não, as notas que são apresentadas
pelas escolas internacionais. E o que a comissão pediu a todas as
instituições é que mostrem os documentos emitidos pelas entidades
competentes do país de origem, de maneira a que os seus alunos possam
concorrer de igual para igual com os do sistema português. Afinal, as
classificações das provas de ingresso dos estudantes portugueses também
são validadas pelo Júri Nacional de Exames.
Como o Liceu Francês tem critérios internos para as classificações, as
notas acabam por divergir das emitidas por Toulouse em vários pontos.
Segundo documentos a que o PÚBLICO teve acesso, um aluno com oito valores
a Matemática, certificado por Toulouse, vê essa nota subir para 12
valores, segundo as tais regras internas de classificação da escola.
Esse certificado, com as notas do final do secundário, é assinado pelo
director e autenticado com o selo do serviço cultural da Embaixada de
França. Nesse mesmo documento, pode ler-se que as classificações só são
válidas para o sistema de ensino português.
Portanto, não são essas notas que permitem aos alunos ingressarem numa
universidade estrangeira, porque para essas vale o certificado emitido por
Toulouse, onde estão as notas do BAC, o "baccalauréat", os exames
nacionais franceses.
"Fica claro, da comparação [entre as notas dadas pelo Charles Lepierre e
as emitidas por Toulouse], que as regras internas por eles usadas não têm
nada que ver com os valores reais dos exames do BAC", declara Meira
Soares.
"Um 14 em França é uma nota muitíssimo boa, por isso, para se adequar ao
sistema português tem de levar essa bonificação. O que o ministério pode
fazer é ver qual é a diferença da média do BAC com a dos exames nacionais
e já sabe que nota deve atribuir. É o mais justo", avança o pai contactado
pelo PÚBLICO.
Ministro cria regra de excepção
Contrariando as exigências da CNAES, no início de Agosto, o ministro Pedro
Lynce resolveu intervir e criou uma excepção, a título transitório, para a
escola francesa: este ano, os alunos puderam concorrer ao ensino superior
apresentando as notas finais do secundário dadas pelo Liceu Francês (sem a
autenticação das autoridades do país). Só no que respeita às provas
específicas é que o ministro se mostrou intransigente e exigiu os
resultados do BAC, reconhecidos pela Academia de Toulouse.
Para o ano, tanto as notas finais do secundário como as dos exames terão
de ter esse selo de garantia das entidades oficiais francesas.
Pedro Pedreira, nomeado pela comissão de pais para este assunto, lamenta
que "as regras tenham sido definidas depois de o jogo ter começado", ou
seja, os alunos só se aperceberam que as classificações não foram
suficientes para entrar quando saíram os resultados do acesso, a semana
passada. Os pais já apresentaram uma reclamação junto da Direcção-Geral do
Ensino Superior e aguardam resposta. "Não pode haver outra alternativa que
não seja o seu ingresso", confia Pedro Pedreira.
A situação que se manteve nos últimos anos terá prejudicado não só os
alunos do sistema português como os que estudam em França, porque esses
não eram beneficiados como os do Charles Lepierre com as chamadas "regras
internas", acrescenta Meira Soares.
Durante o ano, a CNAES reuniu com todos os colégios internacionais, para
esclarecer as dúvidas quanto à nova legislação. No caso do Liceu Francês,
o director fez-se sempre acompanhar por representantes diplomáticos. O
PÚBLICO tentou contactar o director da escola, bem como o adido para a
cooperação educativa da embaixada francesa e nenhum se mostrou disponível. |