Público - 23 Out 03

Jovens Europeus Consomem Cada Vez Mais Álcool e Drogas em Excesso

Estudos realizados em escolas da UE revelam que a embriaguez é mais comum na Dinamarca e menos frequente em Portugal - um em cada três alunos portugueses entre 15 e 16 anos já se embriagou pelo menos uma vez. O relatório anual do Observatório Europeu das Drogas e da Toxicodependência, divulgado ontem em Estrasburgo, refere que o consumo de "cannabis" cresceu durante a década de 90 em quase todos os países-membros e em especial entre os adolescentes. Por Amílcar Correia, em Estrasburgo

A juventude é um eterno problema. O aumento do consumo excessivo de álcool e o consumo intenso de drogas entre um pequeno, mas substancial número de jovens, é a principal preocupação do relatório anual do Observatório Europeu das Drogas e da Toxicodependência (OEDT), divulgado ontem na cidade francesa de Estrasburgo.

A Dinamarca, dizem estudos realizados em escolas da União Europeia, é o país com a percentagem mais alta de consumo de álcool entre jovens com idades entre os 15 e os 16 anos: 89 por cento dos adolescentes confessaram ter experimentado o estado de embriaguez. Portugal surge no fundo da tabela com uma percentagem de 36 por cento, ou seja, um em cada três alunos portugueses entre 15 e 16 anos já se embriagou pelo menos uma vez.

Nos países candidatos à adesão, os dados disponíveis são igualmente esclarecedores: cerca de dois terços dos jovens naquele intervalo etário admite ter-se embriagado pelo menos uma vez. Em seis daqueles países, os adolescentes classificados como "consumidores de álcool experientes" (aqueles que reconheceram ter ingerido álcool 40 ou mais vezes na vida) aumentou consideravelmente.

Os dados coligidos pelo OEDT dão conta de uma curiosa diferença geográfica entre os 15 estados-membros da actual UE. Os jovens do Sul da Europa desaprovam com mais veemência o consumo de álcool do que os seus congéneres do Norte do continente. Exemplo: 80 por cento dos italianos de 15 e 16 anos condenam a sua ingestão, ao passo que a percentagem na Dinamarca não ultrapassa os 32.

O álcool é a substância psicoactiva mais utilizada nos países em vias de adesão à UE, sobretudo entre jovens e especialmente entre jovens do sexo feminino e a "cannabis" a droga ilícita mais consumida. No caso da "cannabis", subsistem variações assinaláveis: a Holanda, Reino Unido, Irlanda ou Espanha possuem taxas de prevalência de consumo entre os jovens acima da fasquia dos 30 por cento, mas Portugal não vai além dos 8. O consumo de "cannabis" aumentou bastante, sublinha o relatório, durante a década de 90 em quase todos os países-membros e em especial entre os adolescentes.

7 a 9 mil mortes por ano
Os solventes ocupam o terceiro lugar das preferências juvenis, mais acentuado no Reino Unido e Irlanda e quase inexistente em Portugal (a percentagem de consumo entre os jovens português não vai além dos três por cento). Não é de estranhar, pois, que o Reino Unido evidencie indicadores preocupantes quanto ao número de óbitos causado pela utilização de substância solventes. Cerca de 1700 mortes de jovens britânicos foram causadas, entre 1983 e 2000, pelo uso de tais produtos. Anualmente, são notificados na UE 7 a 9 mil mortes por intoxicação aguda associada ao consumo de droga. O número de óbitos causados pelo vírus da sida tem diminuído, mas o número de mortes por "overdose" mantém-se estável ou continua a aumentar, frisam os especialistas do OEDT. "A mortalidade entre os consumidores de droga injectada é duas a quatro vezes superior à dos consumidores de droga não injectada", conclui o referido relatório.

George Estievenart, director-executivo do OEDT, sustenta que a situação actual do problema da droga na UE (e na Noruega, cujos dados foram incluídos neste relatório) deve ser encarada, apesar de tudo, com um "optimismo prudente". A prudência deve-se, nas suas palavras, às "preocupações por não se estar a ter um impacte suficiente no consumo grave, de longo prazo ou regular de droga num número preocupante de jovens de muitos países da UE".

Estivenart observa que os dados sugerem que "a tendência do consumo de drogas se mantém em alta" e que se assiste à "emergência de novos problemas, nomeadamente um consumo crescente de cocaína nas grandes cidades". A Europa permanece como o maior mercado de consumo de resina de "cannabis", o vulgar haxixe - três quartos da droga apreendida na UE - e o principal produtor e consumidor de anfetaminas e "ecstasy".

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