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Público - 2 Out 03
Como Acabar com o Insucesso Escolar
Nos Estados Unidos há um concurso que abrange todas as escolas do ensino
secundário e que premeia os melhores trabalhos de investigação
desempenhados pelos alunos do 12º ano.
Há anos aconteceu que os dez alunos mais classificados foram de origem
asiática. A revista "Time", admirada, foi a casa de uma família coreana
ver como se preparavam os alunos para as primeiras classificações. Assim
verificou a revista que naquela casa, após o jantar, levantada a mesa, a
família sentava-se e os pais estudavam as lições com os filhos mais velhos
e estes davam explicações aos irmãos mais novos.
E cá por Portugal, como é?
Há anos, uma senhora que organiza idas à praia para as crianças mais
desfavorecidas dizia aos jornais que não era difícil arranjar dinheiro
para levar os miúdos à praia, o difícil era obter a autorização dos pais
para que isto acontecesse, e dizia a senhora: "Os pais perguntam 'se eu
não fui à praia quando era miúdo e não morri por isso, porque é que eles
hão-de ir'?"
"Mutatis mutandis": "Se eu não estudei porque hão-de estudar os meus
filhos?"
A criança desfavorecida tem assim um ambiente doméstico desencorajador à
continuação dos estudos. Por outro lado, vivendo num ambiente carenciado
de dinheiro, é lógico que pense em empregar-se cedo e que mande os estudos
às urtigas.
Como fazer para que a criança se sinta estimulada a continuar os seus
estudos?
Compete ao Estado pagar à criança para que ela não abandone a escola. E
como? Pagando por passagem de ano e a tanto por valor alcançado. Uma
criança que chegue a casa - no fim do ano - com digamos 100 euros por ter
passado de ano é o orgulho dos pais. Ele - o pai - sente-se comovido e a
mãe sente respeito pelo filho. E na taberna o pai diz alto para quem o
quiser ouvir: "O meu filho estuda para doutor e se não o fizer parto-lhe a
cara." Sacrossantas palavras, porquanto o sucesso escolar faz-se também
com "sangue, suor e lágrimas".
E os professores? Os professores são parte integrante do sucesso escolar.
O professor - tal como o vendedor - deve ter o seu ordenado dividido em
dois ordenados: um fixo e um variável. O ordenado fixo permite ao
professor um trem de vida sofrível. O ordenado variável - associado ao
ordenado fixo - dá ao professor um trem de vida razoável.
O ordenado variável deve estar indexado ao desempenho dos alunos: passagem
de ano mais valores acima de 10 (numa escala de 0 a 20). Se o aluno passa
de ano com 10, não tem prémio - para isso, o professor é pago com o
ordenado fixo - se o aluno obtém uma classificação acima do 10, aí o
professor passa a ganhar um ordenado variável. Quanto maior a valorização
da turma mais ganha o professor. E se um aluno apanhar um 20, os sinos do
céu tocam em uníssono "Aleluia, aleluia, aleluia!" E o professor e o aluno
têm conjuntamente um pleno!
O sucesso escolar baseia-se na acção conjunta da família, do aluno e do
professor. E o Estado tem de pagar ao aluno e ao professor para que haja
sucesso escolar. Estes dois prémios de desempenho - aluno e professor -
são condição "sine qua non" para a competitividade de Portugal.
Plagiando Cervantes, digo: "Vale!"
Há muitos anos, trabalhando para uma empresa de organização, visitei uma
fabriqueta de chapéus de chuva. Porque os prémios ao desempenho estavam
mal calculados, as jovens operárias ganhavam mais - colocando manualmente
as varetas nos chapéus - que os operários seniores com 40 anos de casa.
Absurdo!
O cálculo dos prémios ao desempenho de alunos e professores é assunto
muito sério e o Ministério tem forçosamente de contratar uma empresa de
engenheiros consultores internacionais para calcular tais prémios.
Luís Toulson, Lisboa |