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Público - 11 Out 03
Imagens e "Bonecada"
Por I.L.
Outros dos aspectos críticos analisados no trabalho de Maria do Carmo
Vieira que, como determina a lei, já foi enviado para o Ministério da
Educação, prende-se com a selecção de imagens que acompanham os textos, em
particular a poesia de Camões.
A professora não entende, por exemplo, por que razão o poema "Mudam-se os
tempos, mudam-se as vontades" vem acompanhado, num dos manuais ("Entre
Margens", da Porto Editora), de uma fotografia da "National Geographic",
de 1994. Ou por que, em muitos outros casos, vários pintores do século XIX
- Renoir, Van Gogh, Gauguin - ilustram a poesia camoniana, quando a
exploração da pintura renascentista seria o ideal, sustenta. Noutras
situações, prossegue, "o mais confrangedor é a bonecada com que se ilustra
todo o tipo de textos".
"Qualquer obra de arte reflecte a sua época, como associar, pois, épocas
diferentes?", questiona Maria do Carmo Vieira, que defende que a aula de
Português devia o ser espaço privilegiado para se aliar literatura,
pintura, música ou história, numa perspectiva de "contextualização da
identidade cultural".
Mas também em relação a este aspecto a perspectiva pode ser diferente.
"Até ao momento, a função da imagem, na maior parte dos manuais, era
meramente ilustrativa. O novo programa confere um papel de destaque à
imagem,
preconizando a leitura da mesma e a relação entre o verbal e o não verbal.
Neste sentido, pensamos que é legítimo que a imagem possa ser utilizada
para desenvolver algumas competências, não se limitando o seu uso ao
âmbito da
contextualização histórico-cultural e estética", defendem Gabriela Lança e
Conceição Jacinto, autoras de um dos novos manuais de Língua Portuguesa. |