|
Diário de Notícias - 14 Out 03
Essencial
Francisco Sarsfield Cabral
Vem aí mais um debate sobre o Orçamento do Estado. Mas é improvável que se
discuta o essencial: quais as funções do Estado para que é imprescindível
o dinheiro dos contribuintes? Esta deveria ser, de resto, uma questão
prévia a qualquer reforma da administração pública.
Ano após ano, e com a ressalva importante das privatizações de empresas
nacionalizadas em 1975, temos assistido a que o Estado se mete em tudo,
excepto no que só ele pode e deve fazer. Assim, com a imperiosa contenção
da despesa pública vão ficando cada vez menos operacionais áreas básicas
do poder estatal. Basta pensar no estrangulamento financeiro das forças
armadas e de segurança; ou nas dificuldades de funcionamento da justiça
por falta de verba; ou, ainda, na ironia de as limitações orçamentais
impedirem um eficaz combate à fuga aos impostos.
Entretanto, permanece o monstro burocrático e ingerível do ensino estatal
e é com lentidão e insegurança que a saúde pública ensaia aberturas à
iniciativa privada. Invoca-se a importância das funções sociais do Estado
para o manter como grande fornecedor de serviços, em vez de reforçar a sua
missão reguladora e fiscalizadora. Há aqui um equívoco. Por exemplo, o
dinheiro que o Estado hoje gasta na escola pública seria socialmente muito
mais útil se fosse entregue às famílias para pagarem as escolas que
escolhessem.
E esquece-se que um Estado debilitado naquelas áreas essenciais da
justiça, segurança, etc., onde só ele tem legitimidade para actuar,
prejudica sobretudo os mais pobres, porque os outros lá se vão safando
graças ao seu poder económico e social.
Mas estes argumentos de pouco valem contra o verdadeiro motivo para o
Estado ser o que é em Portugal: arranjar empregos. |