Público - 20 Out 03

O Último Escândalo
Por FERNANDO ILHARCO

Tão escandaloso como os escândalos dos dias de hoje é o facto destes últimos, em muito do que lhes é essencial, serem apenas mais um dos muitos conteúdos da sociedade tecnológica informacional. O que tem feito a dimensão e o impacto dos escândalos, independentemente do seu carácter repugnante, criminoso ou imoral, é a sua mediatização especulativa, constante e exaustiva. Trata-se de um problema e também de um desafio, cujos contornos e implicações são ainda mal conhecidos, das muitas sociedades da nova "aldeia global". O aparato tecnológico informacional e comunicacional - os milhões de aparelhos de televisão que nas casas, nos escritórios, nas lojas e nos cafés de Portugal, os omnipresentes telemóveis, a ubíqua Internet e os jornais e as revistas por todo o lado - é hoje o mais real, o mais próximo e decisivo para a maior parte de nós. Aliás este facto, simples e óbvio, tende a ser tão mais relevante quanto menos pertinente ele parece surgir àqueles que são o que são e estão onde estão apenas, sobretudo e só no ambiente da imensa composição informacional-comunicacional-tecnológica contemporânea... Por isso, a informação que hoje nos envolve é, como sempre o foi, a realidade. No entanto diferentes são hoje as coisas, porque as nuvens no céu ou a estrada no chão são imensamente diferentes das nuvens e da estrada na televisão. E até aqui tudo quase se entende, não fosse uma surpresa poder estar prestes a rebentar; não nas páginas dos jornais ou nos écrans das televisões, mas nos gabinetes e nos laboratórios da investigação cientifica e académica contemporânea.

Depois de Kant no século XVIII ter considerado um escândalo não ter sido até então produzida prova alguma da existência do mundo e de Heidegger, no inicio do século XX, ter comentado que escândalo era alguma vez se ter procurado tal prova; depois de nos últimos 100 ou 150 anos as ciências sociais e humanas terem mostrado a não transparência da linguagem humana, algo que vinha sendo assumido pela tradição intelectual ocidental; depois da viragem computacional e quântica, iniciada por Heisenberg, entre outros, ter provado que o que experimentamos e não experimentamos depende do aparato tecnológico e teórico onde assentamos; depois de tudo isto e de outro tanto, nos labirintos das universidades e dos centros de investigação da Europa e da América pode estar a preparar-se o terreno para o rebentar de mais um escândalo, o qual tal como os outros, surge surpreendentemente
revolucionário. Esse escândalo tem o nome da era em que vivemos: informação.

A informação, a matéria que hoje por todo o lado fazemos, nos envolve e, enquanto substância, sempre e já desvalorizamos, é um fenómeno, diversificado, complexo e penetrante. Parafraseando Aristóteles no tratado "Metafísica", a informação tal como o ser pode ser dita de muitas formas e essa correlação provavelmente não é acidental. Estudarmos, pensarmos, investigarmos, reflectirmos a informação - porquê e porquê agora? Tomemos a viragem linguística do pensamento ocidental. Durante séculos a linguagem foi esquecida pela investigação cientifica e filosófica do Ocidente. Em termos fundamentais pressupunha-se a sua transparência e total instrumentalidade, ou seja uma correspondência não obstrutiva e linear entre as coisas e as ideias por um lado, e as palavras e as frases por outro lado. Também a informação é ou foi tida até hoje sensivelmente da mesma maneira, isto é, como evidente, clara, de certa forma objectiva e equivalente às próprias coisas. Na viragem linguística questionou-se a transparência e a instrumentalidade da linguagem. Ora se a linguagem não era um instrumento do homem, se ela era e é a própria essência do homem, isto é, se é na linguagem que o mundo, como mundo, se nos revela humanamente, então toda a experiência humana, todas as questões fundadoras e fundamentais da filosofia e da ciência teriam que voltar a ser colocadas. Muito tem seguido precisamente por aí. No que respeita ao fenómeno da informação, porque é evidente que nas sociedades mais desenvolvidas as pessoas vivem imersas em informação de origem tecnológica, porque a tecnologia fez da natureza o seu próprio conteúdo, como referiu McLuhan, deve colocar-se o mesmo tipo de questão. A tradicional explicação de que a informação é o adicionar de significado aos dados não colhe, porque implica a possibilidade de indicar dados, enquanto informação sem significado, o que evidentemente, num mundo humano onde o significado é a sua natureza, é impossível. De resto que os mesmos dados ou informação têm diferentes significados para diferentes pessoas é algo por demais evidente. Assim se a informação não é transparente, se uma distinção ou uma diferença varia o seu significado, isto é, o que ela mesma é enquanto aquilo que é, de pessoa para pessoa, de situação para situação, de contexto para contexto, então o carácter informativo da informação, a sua pressuposta transparência, deve ser colocada em questão e desse facto retiradas consequências. Quer isto dizer que a informação, enquanto fenómeno de base, vital e decisivo da sociedade tecnológica, mediatizada contemporânea, deve ser investigada, reflectida, pensada em termos primários e fundadores, ou seja como filosofia, como filosofia da informação. Mas o mais surpreendente pode estar ainda por chegar.

Que tipo de conhecimento poderemos procurar, obter e eventualmente dominar sobre o fenómeno informação? Neste ponto as coisas revelam-se verdadeiramente revolucionárias. Como pensar e reflectir sobre como procurar conhecimento - qualquer que seja o modo como entendamos esse conhecimento - sem antes esclarecer a natureza da própria informação que acedemos, precisamente na tentativa de ganhar conhecimento sobre o fenómeno que aqui abordamos? Terá a tradição intelectual ocidental, ao colocar a questão epistemológica, a questão da natureza do conhecimento, como fundadora do ser que somos no mundo, sem antes ou simultaneamente ter endereçado com igual profundidade a natureza da informação, dado um pulo demasiado longo? Terá a nossa tradição cientifica e filosófica pura e simplesmente esquecido a questão informação ao ter avançado para a questão do conhecimento?

Estas interrogações, novas e revolucionárias, que nos últimos anos têm vindo a trazer um renovado entusiasmo em diversos campos do saber, tanto na América como na Europa ou no Japão, entre outros aspectos fundamentais, questionam vários importantes pressupostos do actual estado de coisas: por exemplo, o de que quanto mais informação, melhor, ou a primazia da liberdade da informação, de produzir, de a gerar e de a distribuir. Mas de facto de que se fala? Que relação tem a abundância de informação com a qualidade de vida e a dignidade dos homens? Com a ética? Com a liberdade? Com a segurança? Com a justiça? Com o estado de direito? Com as acções, os planos, os objectivos e as intenções dos homens no mundo? Mais, se a realidade sempre foi informacional, não estaremos hoje em dia com a hiper-abundância da informação tecnológica a construir um mundo e não a informar sobre um outro? Que mundos são esses?

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