Diário de Notícias - 6 Out 03

João César das Neves 
 Um momento de delírio

E se a RTP fosse boa? Eu sei que isto é louco, utópico, delirante até, mas como seria a RTP se fosse boa?

Este é o único caso que tem interesse considerar. Com a SIC e a TVI não há, obviamente, hipótese pois, dizendo-se comerciais, nem sequer cumprem o respeito básico ao cliente de seguir os próprios horários ou passar o filme que anunciaram. Por outro lado, os canais por cabo são naturalmente bons, porque, aí sim, paga-se e pode-se sempre desistir. A dúvida é a RTP, serviço público financiado por todos nós.

Vá lá, um esforcinho! A gente, com um bocado de imaginação deve ser capaz de dizer umas coisas sobre uma televisão aceitável. Como seria a RTP se fosse boa?

Era tão fácil a RTP ser boa! A principal opção seria explorar apaixonadamente o enorme tesouro que é a vida concreta dos portugueses, a sua cultura e tradição. O grande trunfo da RTP é Portugal. O fervilhar das cidades, o desafio das aldeias, o ardor das festas, o mistério da ecologia, o recorte do terreno, a novidade da economia, a nostalgia do passado, a esperança do progresso. Compreender esta maravilha que é Portugal. Contemplar monumentos, ruelas, artefactos, folclores, lendas e costumes. Não com o ar bafiento de museu ou pedante de crítico, mas com a paixão de compreender, conhecer, explicar, viver. Procurar servir o espectador e não servir-se dele. Tê-lo como objectivo, não como objecto.

No entretenimento e cultura usaria o actual talento nacional. Não o que o ministro da Cultura paga, mas aquele que o seu bisneto ainda vai querer ver e que, naturalmente é outro (pois se até o ministro só obrigado é que vê o que paga). Mas para isso é preciso ter de «talento», um conceito mais vasto do que simplesmente um apresentador de concursos que sabe manter uma conversa com uma dona-de-casa de Amarante e ainda sorrir no fim.

Usaria largamente o antigo talento nacional. Não com o ar bafiento de museu ou pedante de crítico, mas com a paixão de conhecer, aprofundar, viver. O talento literário de Vieira ou Régio, plástico de Grão-Vasco ou Almada, poético de Camões ou Pessoa, histórico de Fernão Lopes ou Oliveira Martins, dramático do único Gil Vicente e seguidores. Mas também humorístico de A Arte de Furtar, Bocage, Bordalo, Gervásio Lobato, André Brun e tantos outros.

Usaria também o talento acumulado na empresa, o talento do arquivo da RTP, que, esse sim, é mesmo gold. Esse é um tesouro inexplorado, não apenas para reposições, mas para reformulações e, sobretudo, inspirações. Usaria ainda largamente o talento internacional. Compraria bons filmes, boas séries, bons documentários, bons magazines. Aqueles que toda a gente sabe quais são e que os canais portugueses até compram, mas só usam para armazém ou de madrugada.

No campo da informação era ainda mais fácil, porque aí é só fazer o contrário do que se faz. Seria substituir os debates postiços e ensaiados, o enlatado da agência noticiosa, a coscuvilhice de bairro e o malabarismo dos comentadores pela realidade do País, dos problemas, das tendências, das estruturas. Enfim, dizer coisas interessantes.

Se a RTP fosse boa seria como a BBC. Uma versão modesta, mais barata, mais caseira, mas uma versão da BBC. Se a RTP fosse boa ... Está bem, pronto! Admito: não pode ser. É de mais. Como é que a RTP poderia ser assim? Como é que a RTP poderia ser boa? Esqueçam, pronto! Era com boa intenção. Desculpem.

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