Público -1 Out 03

Cumprir Tem de Ser a Regra e Não o Inverso

Está instalada uma certa forma de pensar e de actuar inerente ao não cumprimento das obrigações e deveres por parte de um grande número de cidadãos. E fazem-no porque assumem que, se não cumprirem à primeira vez e nada lhes acontecer, passam a ter esse posicionamento como um hábito, dado que dificilmente poderá haver uma punição, um castigo.

Se a própria ministra das Finanças afirma que só 57 por cento das empresas e dos profissionais liberais cumprem com as suas obrigações perante o fisco, implicitamente se depreende que existe uma grande dificuldade em fazer que todos sejamos cumpridores. Evidentemente que quem trabalha por conta de outrem e todas as empresas que se comportam correctamente são o esteio económico e financeiro deste país.

E será desnecessário falar-se em baixa produtividade e em grande défice da segurança social face à antecipação da idade da reforma, sendo por vezes a única alternativa viável para muitos cidadãos. Simultaneamente, não se encontram meios adequados e funcionais por forma a que todos cumpram, já que assim o Estado teria mais meios para aplicar em todas as áreas que lhe competem: saúde, segurança social, segurança em geral, justiça, etc.

Outro exemplo flagrante é o do incumprimento mensal no prazo estipulado do pagamento da renda por parte de muitos inquilinos. O que acontece de concreto? O senhorio, como arrendatário, tem todo o direito de fazer valer o que a lei estipula, e estamos a falar de senhorios que correcta e honestamente celebram contratos de arrendamento, os registam nas finanças e fazem os respectivos descontos em fonte de IRS, proporcionando mais um rendimento para o Estado. Ou seja, exigir ao inquilino um acréscimo de 50 por cento da renda mensal a partir do nono dia do mês em que não é feito o pagamento, e eventualmente entrar com uma acção de despejo.

Na prática, face à tremenda morosidade da justiça e face à eterna não alteração da lei do arrendamento, o senhorio quase tem de pedir por favor ao inquilino se este não se incomoda de pagar, dado que está a usufruir de um espaço para o qual tem de dar uma contrapartida. Mas o inquilino vai sentindo, se menos bem intencionado, que a justiça é lenta, que pode atrasar o cumprimento do que se comprometeu fazer, que muito tardiamente lhe vai
acontecer alguma coisa.

Será a altura de se repensar muito seriamente este país, em que a detenção e uso de bens materiais, bem como o ser importante é o que mais importa sem em simultâneo haver força, critérios, meios rápidos e eficientes para fazer funcionar todos os sistemas, de forma legal, e com a máxima rapidez e eficiência, que penalizem severa e exemplarmente quem não cumpre, e são tantos...

Se tal acontecer, continuamos a ter metade do país composto por voluntários cumpridores - eventualmente lorpas - e a outra metade de voluntários incumpridores - eventualmente xicos-espertos.

Talvez seja a altura de moralizar todo o sistema, por forma a que a percentagem de não incumpridores não tenha significado, e a norma seja que todos saibamos que temos de cumprir, e que, se o não fizermos, seremos severamente punidos. Para além de se moralizar o sistema, vai proporcionar ao Estado arrecadar as verbas necessárias para cobrir o tão falado défice, para deixar de se preocupar com a possível falta de dinheiro para pagar reformas, para termos um melhor sistema de saúde, uma melhor justiça, e sabermos ser um país dito civilizado, nesta selva em que nos encontramos, com tanta falta de rumo, de referências, de valores...

Augusto Küttner de Magalhães

Porto

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