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Público - 16 Out 03
Coimbra É Uma Lição?
Por JOSÉ MANUEL FERNANDES
Na segunda-feira, no final do programa da RTP "Prós e Contras", o deputado
socialista e ex-ministro da Educação Augusto Santos Silva, que não é
suspeito de apoiar o novo regime das propinas, disse, dirigindo-se ao
presidente da Associação Académica de Coimbra, Victor Hugo Salgado, que os
movimentos estudantis estavam "a cometer um erro trágico" ao radicalizarem
a luta e prometerem acções de desobediência civil. Não deve ter sido
ouvido: o dirigente associativo prosseguiu ontem a sua escalada radical ao
anunciar que não compareceria ao encontro com a nova ministra da Ciência e
Ensino Superior. Mostrou assim que não só é mal-educado, como perdeu toda
a legitimidade para, mais tarde, pedir ao Governo que ouça os estudantes.
Mas esta não foi a única má notícia que ontem nos chegou de Coimbra. O
discurso do reitor da Universidade, Seabra Santos, foi também um exemplo
do clima de irresponsabilidade que se vive naquela academia. É que se teve
pontos positivos na sua intervenção - nomeadamente quando lembrou aos
estudantes que "não é legítimo que se reivindique o direito de participar
em órgãos colectivos de gestão democrática, como o Senado, e se utilize
essa participação para matar a própria vida democrática" -, a verdade é
que descarrilou por completo quando recorreu a comparações demagógicas e
tentou inverter a lógica da autonomia universitária.
De facto, como é possível entender que um reitor defenda que o simples
facto de existirem propinas diferenciadas abra caminho ao fim do ensino
superior público, pois implicará que passe a haver, na sua opinião, "tão
somente, um conjunto de instituições de ensino superior"? Será que só uma
taxa única daria unidade ao sistema? E que sentido faz falar de unidade do
sistema - para mais numa perspectiva que mais lembra a unicidade... -
quando a autonomia universitária pressupõe a existência de instituições
diferenciadas com responsabilidades descentralizadas, prestando serviços
diferentes e competindo entre si?
Seabra Santos deve desejar, esperamos, poder continuar a definir os cursos
que a sua universidade ministra, a escolher os seus professores e a optar
entre diferentes investimentos e diversas vias de desenvolvimento. A isso
chama autonomia, e bem. Aquilo que não deseja é, em simultâneo, arcar com
uma pequena parte da responsabilidade pelo financiamento dessas escolhas.
Na sua estranha opinião, foi o Estado que confundiu "autonomia e
desresponsabilização" pois não assumiu o ónus de dizer que propina devia a
Universidade de Coimbra cobrar. Era uma decisão que, na sua opinião, "mais
ninguém pode assumir ou tomar por ele".
Por outras palavras: a Universidade e o seu reitor decidem como gastar o
dinheiro; o Estado - ou o Governo, que vai dar ao mesmo - decide como
arranjar a totalidade desse dinheiro. Claro que não é por faltar coragem
política aos reitores que eles não querem tomar essas decisões,
acrescentou Seabra Santos: o mal é o Estado não querer "assumir o ónus
político de encerrar alguns estabelecimentos de ensino superior ou de
aumentar impostos".
É que aumentando impostos tudo ficaria mais simples. Os reitores já não
teriam de tomar decisões difíceis e os estudantes já não protestariam,
dedicando-se por inteiro, felizes, àquilo a que verdadeiramente gostam de
se dedicar neste período de reinício das aulas: a tortura dos caloiros. |